CRISIS ? …WHAT CRISIS ?
O título supracitado refere o quarto álbum da mítica banda musical Supertramp, curiosamente o primeiro parcialmente gravado nos Estados Unidos.
Vem este título a propósito da atual situação que estamos vivendo nos últimos anos, e que receio que possa continuar nos anos vindouros.
O problema é que estamos a saltar de crise em crise de uma forma contínua, sequencial e interdependente, sem que na realidade consigamos resolver cada crise antecedente, criando assim uma cadeia difícil de quebrar.
Vejamos como se aplica ao tema que nos interessa, nomeadamente ao nosso setor, da Alimentação e Produção Animal.
Assumindo os conhecidos constrangimentos do setor anteriores ao conflito da Ucrânia, e na sequência da brutal invasão da mesma, deram lugar a um cruzar de diferentes crises:
- Abastecimento e disponibilidade de cereais, felizmente resolvidos (temporariamente) pelos acordos com forte intervenção da ONU e da Turquia a questão resulta a solidez destes acordos. Eles serão válidos enquanto servirem os interesses de todas partes e enquanto outros valores não se sobrepuserem. Até quando? Até ao final do conflito?
- Crise energética pela extrema dependência da zona germânica do gás russo, com efeito dominó em todas as economias europeias. A busca de outras fontes energéticas e outros fornecedores no mercado internacional aparentemente tem minimizado esta crise, mas continuamos dependentes de países com alguma (ou muita) instabilidade politica e social e com outros conflitos regionais (veja-se o caso da Argélia). Podemos realmente garantir estabilidade no setor energético enquanto a Europa não conseguir assegurar fontes energéticas dependentes de si mesmo? E o tempo necessário corre a nosso favor?
- As sanções impostas pelo Ocidente à Rússia, na sequência da invasão da Ucrânia, tem a vantagem de pressionar a Rússia, mas tem também um efeito boomerang nas economias ocidentais e particularmente nas condições de vida das populações. O aumento das taxas de juro e a inflação são a
melhor expressão desta situação, com o óbvio risco de que a continuação da guerra e as suas consequências económicas no bolso do cidadão,
tem na aquisição de bens, incluindo os de primeira necessidade, como os bens alimentares, e nomeadamente os de origem animal.
Na sequência da inflação, temos, particularmente em Portugal, assistido a um fenómeno interessante, onde o cabaz alimentar tem uma taxa de inflação superior a 25% correspondendo ao dobro do que se verifica em muitos países ocidentais. Sobre isto muito se escreveu, muito se especulou, muito se tentou legislar, mas muito pouco se conseguiu concluir. O risco aqui é que nesta troca de acusações e de passa culpas, ainda iremos assistir a que o responsável é quem esteja na base da pirâmide, ou seja o produtor dos animais e consequentemente o produtor de alimentos para animais. Ou seja, não bastaria toda a crise que afeta o setor da produção e alimentação animal (contingências abastecimentos, disponibilidade de matérias-primas e micro-ingredientes; inflação sem precedentes; taxas e juros bancários à mercê de efeitos externos; legislação mais exigente e complexa – já lá vamos …) como teríamos que lidar com uma crise mediática, na qual somos claramente o elo mais fraco (e, como tal, o mais fácil de acusar).
Complexidade Regulamentar e as exigências burocráticas – no meio deste turbilhão de dificuldades e emoções, o setor da produção e alimentação animal tem necessariamente que saber lidar com os desafios crescentes que as exigências legais na Europa colocam ao nosso setor, sempre em pretensa defesa da saúde pública, do ambiente e do bem-estar animal.
Se no setor da produção animal, algumas exigências são discutíveis sob o ponto de vista de aplicabilidade (veja – se o caso das exigências no setor avícola), no caso da Alimentação animal, vivemos um turbilhão de transformações que impossivelmente caberia num curto artigo desta natureza. Apenas a título de exemplo e de forma muito sumária: a potencial eliminação de muitos aditivos, alguns por serem órfãos, outros por não conseguirem cumprir o crivo das atuais exigências comunitárias; a questão dos micronutrientes e aditivos de origem animal provenientes da China, caso da Vitamina D; o grau de exigência das substâncias ditas indesejáveis; a situação dos PFAS que a Europa pretende eliminar; a mudança das micotoxinas do Fusarium para limites máximos e a sua revisão em baixa; o caso da Fenitidina ; o uso dos sais de cobalto; a situação da Vitamina B12; e muitos outros casos de necessidades regulamentares, que implicam um enorme esforço de transformação e adaptação num tempo tão incerto em que vivemos.
Resta-nos uma mensagem positiva. Talvez, ou seguramente, a mensagem mais positiva.
No meio deste turbilhão de acontecimentos, exigências e crises, a principal crise (que a Europa já enfrentou no passado) não afetou a nossa sociedade.
Estamos a falar da crise alimentar, a falta de alimentos! Felizmente todo o setor (desde a produção à distribuição) conseguiram dar respostas em tempo útil, enfrentando situações que anteriormente pensaríamos inultrapassáveis, de forma a garantir os fornecimentos de uma forma segura, disponível e acessível para todos os cidadãos.
Infelizmente, houve pouco reconhecimento deste facto (e não se trata de uma postura tipo Calimero, mas apenas a constatação do facto). E isso apenas
acontece porque o nosso setor soube, com dedicação e o esforço de todos os que trabalham dia-a-dia para garantir a segurança do fornecimento alimentar, adaptar-se, inventar-se e ser aquilo que hoje se designa como um exemplo de resiliência.
Pena que muitas vezes não seja reconhecido este trabalho e que estejamos tão sujeitos a um escrutínio mediático tantas vezes infundado.
Mas o setor irá sempre cumprir a sua missão e visão: continuar a produzir alimentos de origem animal, com qualidade e segurança, de forma a responder às necessidades e exigências dos consumidores, que somos todos nós.
Rui Gabriel
