Apesar da sua adopção generalizada, os critérios de ESG têm sido criticados pela sua falta de especificidade na abordagem ao desafio das alterações climáticas. Com a escalada da crise energética, devem as empresas concentrar-se mais directamente nos esforços de transição climática do que nas estratégias de ESG tradicionais?
Os críticos do ESG argumentam que a falta de normalização e de transparência, bem como a inconsistência da regulamentação, prejudicam a sua eficácia como instrumento para promover mudanças significativas, tornando-o susceptível de manipulação e de greenwashing.
Além disso, uma pesquisa publicada no Harvard Dash Repository indica que a grande variedade e inconsistência dos dados, da medição e das técnicas de comunicação devem levantar dúvidas sobre a fiabilidade e a comparabilidade das classificações de ESG.
Em contraste com o ESG, que engloba um vasto leque de considerações ambientais, sociais e de governance, a transição climática centra-se especificamente na implementação de medidas abrangentes de descarbonização e adaptação para combater as alterações climáticas. A transição climática envolve a transição para fontes de energia renováveis, a redução das emissões de gases com efeito de estufa e a criação de resiliência aos impactos climáticos.
Acredito, assim, que estes esforços direccionados dos líderes empresariais podem ajudar a enfrentar melhor as alterações climáticas. Podemos procurar implementar medidas concretas que reduzam as emissões e mitiguem os riscos ambientais.
A necessidade urgente de acção climática
A urgência de implementar esforços de transição climática está bem documentada. Por exemplo, segundo o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), as temperaturas globais subiram cerca de 1,1 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais, com impactos devastadores em ecossistemas, economias e comunidades de todo o mundo. Sem reduções rápidas e substanciais das emissões de gases com efeito de estufa, o mundo está em vias de ultrapassar o limiar crítico de 1,5 graus Celsius de aquecimento, o que terá consequências catastróficas.
Além disso, a quantidade de «gases de efeito estufa que retêm o calor na atmosfera atingiu, mais uma vez, um novo recorde » em 2022, de acordo com um relatório de 2023 da Organização Meteorológica Mundial, com concentrações médias de dióxido de carbono 150% acima da era pré-industrial, que continuaram a aumentar em 2023.
Aproveitar as oportunidade de inovação e crescimento
As oportunidades para as empresas inovarem e crescerem com esforços de transição climática são múltiplas. Segundo a Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA), as energias renováveis representaram 81% de todas as novas inclusões de capacidade energética a nível mundial em 2021. O rápido crescimento do sector das energias renováveis apresenta oportunidades significativas para as empresas investirem em tecnologias limpas e descarbonizarem as suas operações.
Além disso, uma pesquisa do McKinsey Global Institute estima que a transição para uma economia de baixo carbono pode levar a uma realocação de mão-de-obra, com cerca de 10 milhões de empregos líquidos ganhos em 2050, impulsionados por investimentos em energias renováveis, eficiências energéticas e infra-estruturas sustentáveis. Assim, os esforços de transição climática têm um papel importante a desempenhar tanto na mitigação dos riscos climáticos como na promoção do crescimento económico e da criação de emprego.
As empresas podem incorporar os esforços de transição climática nos seus planos
A abordagem às alterações climáticas exige uma acção de colaboração entre sectores e indústrias. Embora as iniciativas de ESG desempenhem um papel na promoção de práticas empresariais responsáveis, acredito que os esforços de transição climática têm o potencial de catalisar a mudança sistémica e, em última análise, impulsionar a transição para uma economia mais sustentável.
Ao darem prioridade à acção de transição climática, as empresas podem responder às críticas do ESG, alinhar-se com as expectativas dos stakeholders e aproveitar as oportunidades de inovação e crescimento. Os executivos podem tomar as seguintes medidas para implementarem os esforços de transição climática na sua empresa:
- Definir objectivos ambiciosos para a redução das emissões
As empresas podem incorporar os esforços de transição climática estabelecendo objectivos ambiciosos para reduzir as suas emissões de gases com efeito de estufa. Isto pode implicar a adopção de metas baseadas na ciência, alinhadas com os objectivos do Acordo de Paris, o compromisso de neutralidade carbónica e a implementação de estratégias para atingirem estes objectivos nas suas operações.
- Investir em energias renováveis e eficiência energética
A mudança para fontes de energia renováveis, incluindo a energia eólica e solar, pode reduzir drasticamente as emissões de carbono resultantes da utilização de energia. As empresas podem investir em projectos de energias renováveis, instalar sistemas de energias renováveis no local e dar prioridade a medidas de eficiência energética para minimizarem a sua pegada de carbono.
- Adoptar práticas sustentáveis em todas as cadeias de abastecimento
As empresas podem trabalhar com os fornecedores para promoverem práticas sustentáveis e reduzirem as emissões em toda a cadeia de abastecimento, como a aquisição de materiais de fornecedores ambientalmente responsáveis, a optimização do transporte e da logística para reduzir emissões, e a implementação de princípios de economia circular para reduzir os resíduos.
- Criar resiliência aos riscos climáticos
As empresas devem criar resiliência ao impacto das alterações climáticas, tais como «fenómenos meteorológicos extremos, subida do nível do mar e escassez de água». As avaliações de risco podem ser utilizadas para identificar vulnerabilidades relacionadas com o clima, desenvolver estratégias de adaptação para mitigar os riscos e definir o planeamento da continuidade das actividades.
- Envolver os stakeholders e defender a acção política
Envolva os stakeholders, incluindo investidores, clientes e decisores políticos, para defender políticas climáticas ambiciosas e apoiar a transição para uma economia de baixo carbono.
Uma parte importante é liderar pelo exemplo. Procure integrar a sustentabilidade na sua estratégia empresarial principal, em vez de a encarar como uma iniciativa individual. Esta abordagem ajuda a garantir que todos os projectos que empreende apoiam um futuro com neutralidade carbónica.
Conclusão
Enfrentar o desafio urgente das alterações climáticas exige que as empresas deem prioridade aos esforços de transição climática em detrimento das estratégias tradicionais de ESG. Embora considere que o ESG continua a ser um quadro importante para avaliar o desempenho da sustentabilidade empresarial, o seu enfoque alargado e a falta de especificidade tendem a limitar a sua eficácia na promoção de mudanças significativas.
Ao visarem a transição climática, as empresas podem alinhar-se com as expectativas dos stakeholders, mitigar os riscos climáticos, aumentar a resiliência e aproveitar as oportunidades de inovação e crescimento, contribuindo simultaneamente para um futuro mais sustentável.
Por: Soheila Yalpani, co-fundadora e COO da TerraScale Inc, na Forbes
Fonte: SAPO


