Não chove, ou chove pouco, e o calor bate recordes na Europa. Os grandes rios europeus, que durante séculos ligaram, alimentaram, e refrescaram populações, estão a ficar secos. Navios de transporte de mercadorias já mal conseguem passar no Reno nem no Danúbio

Não chove, ou chove pouco, e o calor bate recordes na Europa. Os grandes rios europeus, que durante séculos ligaram, alimentaram, e refrescaram populações, estão hoje secos ou demasiado quentes, ameaçando tanto as cadeias logísticas como a produção de energia e a agricultura.

O que agrava a situação do continente numa altura em que a guerra na Ucrânia provocou escassez de matérias-primas e encareceu ainda mais os elos das cadeias de abastecimento, segundo uma reportagem da “Bloomberg” divulgada esta quarta-feira, 10 de agosto.

A agência lembra, citando dados do Eurostat, que os rios europeus transportam o equivalente a uma tonelada de bens por cada europeu a cada ano. Porém, os barcos já mal conseguem passar no Reno nem no Danúbio, dois dos maiores rios europeus.

Em 2018, o Reno, por onde passam carregamentos de carvão que fornecem indústrias da Europa central, já tinha sido vítima de uma grave seca que tinha afetado o transporte fluvial de bens.

Mas agentes de transporte ouvidos pela “Bloomberg” dizem que a situação atual é inédita e que vai ultrapassar em custos o impacto negativo de 5 mil milhões de euros da altura. Como o nível das águas é menor, os barcos não podem levar tanta carga. Há zonas do rio que já praticamente não estão navegáveis. E não se prevê chuva para os próximos tempos, sublinha a agência.

Tudo isto está a encarecer os custos de transporte, já em máximos desde 2021 com a reabertura das economias depois dos confinamentos da covid-19 e agravados com a invasão russa da Ucrânia.

EMPRESAS ALEMÃS EM ESTADO DE EMERGÊNCIA

A seca do Reno está a pôr as empresas alemãs em estado de emergência, principalmente quando a comunidade científica avisa que o rio vai tornar-se cada vez mais intransitável devido às alterações climáticas.

A substituição do rio pelas vias férreas ou pelo transporte rodoviário não é uma solução imediata, dada a falta de capacidade da primeira hipótese e a falta de motoristas de pesados na segunda – pelo que a indústria teutónica já está a lidar com dificuldades de abastecimento.

Entretanto, no Danúbio procede-se a desassoreamentos de urgência na Bulgária, Roménia e na Sérvia para que barcos com matérias-primas cruciais como carvão possam passar. E em França, numa situação normal, as ondas de calor impediriam que as centrais nucleares operassem para evitar descargas de águas a altas temperaturas nos rios.

Porém, numa situação em que metade dos reatores nucleares franceses está em manutenção, foi aberta uma excepção pelo regulador para que continuassem a operar e a gerar energia.

Rios como o Ródano e Garona estão demasiado quentes mas isso não impede que sejam feitas descargas que, segundo a “Reuters”, podem ameaçar ecossistemas fluviais.

Em Itália, o Pó não tem caudal suficiente para garantir cultivo de arroz, de milho e de girassol e a lagoa de Veneza já não consegue manter as condições para a existência de oxigénio suficiente para a produção de amêijoas e mexilhões, pondo em risco 2300 postos de trabalho relacionados com a pesca.

Segundo a “Bloomberg”, um terço da produção agrícola de Itália está em risco devido às secas.

Fonte: Expresso