Nos telejornais e revistas, na boca de políticos e economistas, tornou-se um lugar comum dizer que estamos a viver uma crise. No entanto, pelo menos para já, ela existe num ambiente de crescimento económico e desemprego controlado. Depois de anos que nos fizeram duvidar dos mecanismos económicos mais básicos, este momento volta a obrigar-nos a questionar o que sabemos sobre como eles funcionam e a ajustar as nossas expectativas

Depois do maior crescimento em meio século, a maior travagem em 80 anos. Perdas de poder de compra convivem com níveis de crescimento económico elevados, salários não acompanham a subida de preços, governos hesitantes em gastar apesar de contas públicas controladas, consumidores mais pessimistas mas a gastarem cada vez mais. Encontramos estas inconsistências um pouco por todas as economias avançadas. O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) diz que não há “paralelos históricos” que nos ajudem a perceber o momento que estamos a viver. Se alguém lhe disser que tudo isto é “business as usual”, desconfie. Se lhe assegurarem que basta aplicar as receitas que já conhecemos, duvide. Esta não é uma crise típica.

Ela é tanto mais misteriosa como foram os últimos anos, especialmente desde a crise financeira de 2008. Aquilo que ficará conhecido como a “Grande Moderação” foi um período caracterizado por crescimento e inflação estáveis, com a década anterior a motivar alguma reflexão sobre se a economia ainda funcionava da mesma forma. Mesmo com descidas contínuas do desemprego e injeção de montantes de liquidez inéditos, os preços não mexiam, ficando consistentemente abaixo dos objetivos do BCE, por exemplo. Economistas e jornalistas escreveram milhões de caracteres sobre isso. Aqui na EXAME, também demos os nossos contributos sobre como perceber o momento que estávamos a viver.

“A Grande Moderação, de meados dos 1980s até 2019, antes de a pandemia Covid-19 chegar, foi um período de impressionante estabilidade tanto no crescimento como na inflação”, escreve a BlackRock no seu outlook para a segunda metade de 2022. “Estávamos numa economia puxada pela procura com oferta em crescimento constante. O crescimento do endividamento levava a sobreaquecimento, enquanto quebras do consumo levavam a recessões. Os bancos centrais podiam mitigar ambos subindo ou descendo taxas. Esse período, na nossa opinião, terminou.”

Agora, podemos ter entrado numa era em que a estabilidade é substituída por turbulência. Se antes, os governos e bancos centrais se esforçavam por agitar a economia, agora a sua função pode ser prescrever-lhe calmantes. A BlackRock antecipa um “novo regime de elevada volatilidade”, com um desencontro difícil de solucionar entre oferta e procura, uma revolução financeira chamada “transição climática”, setor público e privado muito endividados e lógicas políticas simplista e dominadas pelo curto prazo.

Em vez de sobrestimar a evolução da inflação, o BCE agora engana-se ao contrário.

No lugar de ciclos mais longos, devemos esperar acelerações e travagens bruscas da economia, um ambiente de juros mais altos para conter as pressões inflacionistas, necessidade de maior intervenção de bancos centrais e governos (provavelmente com avanços e recuos), mercados de trabalho mais frágeis e Estados com mais dificuldades em financiarem-se em comparação com a vida folgada dos últimos anos. Estas ameaças surgem enquanto decorre uma guerra envolvendo uma potência nuclear errática e o perigo do populismo de extrema-direita torna-se mais real nalguns países europeus (olá, Itália!).

Não é futurismo. Já o estamos a observar. Em 2021, o mundo cresceu ao ritmo mais rápido em cinco décadas, um ressalto forte depois de a economia ter caído num poço fundo devido à pandemia e aos confinamentos. Agora, o Banco Mundial diz que estamos a viver o arrefecimento mais intenso em 80 anos. É como estarmos a 200 km/h depois de saltarmos de um avião e, de repente, abrirmos um pára-quedas. A alegoria não é perfeita porque, em vez de impedir que nos esborrachemos no chão, esta travagem está a empurrar-nos para uma possível estagnação.

Nas suas previsões mais recentes, o FMI desenha um cenário pessimista que coloca a economia global com o 6.º pior desempenho dos últimos 43 anos. O cenário base é um crescimento de 3,2% este ano e 2,9% no próximo, mas se as coisas correrem pior, podemos acabar com 2,6% e 2%, respetivamente.

O historiador económico Adam Tooze escrevia no seu site que “nunca vimos uma combinação de inflação já veloz e crescimento a desacelerar rapidamente, com elevadas vulnerabilidades financeiras, nomeadamente endividamento alto, num contexto de subida do preço das casas”.

O BIS explica que essa combinação “não tem precedente histórico”. A instituição explica que os riscos que vivemos hoje refletem “a natureza única da recessão Covid e a expansão que se lhe seguiu”. “A ausência de paralelos históricos torna o outlook altamente incerto”, acrescenta, antecipando, contudo, que será necessário um período de crescimento abaixo da tendência para controlar a inflação, potencialmente uma recessão com efeitos sociais e políticos que devemos temer.

“Na atual conjuntura, se não estão confusos, então não estão a perceber. Esta não é a vossa desaceleração comum. Admitir estar desorientado é um sinal de honestidade e realismo”, avisa Adam Tooze.

A “normalidade económica” é um oxímoro

Na semana passada, o BCE assumiu o abandono da forward guidance. Isto é, o trilho de migalhas que um banco central vai deixando para que famílias, empresas e investidores sejam capazes de antecipar as suas decisões no médio prazo. “Daqui para a frente, tomaremos as nossas decisões de política monetária com base em dados – vamos operar mês a mês e passo a passo”, afirmou Christine Lagarde.

É um bom símbolo para a entrada nesta nova época de incerteza, em que a economia se assemelha a uma montanha-russa. “Estamos a sofrer, ao mesmo tempo, o choque da guerra da Ucrânia e as consequências da pandemia, com a produção chinesa ainda muito afetada, e a procura a recuperar mais rapidamente que a oferta. Precisamos de dar algum tempo para a economia normalizar”, refere Sérgio Rebelo, professor da Kellogg School of Management na Northwestern University, à EXAME. (…)

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Fonte: EXAME