A guerra entre a Rússia e a Ucrânia terá, para a indústria de lacticínios portuguesa, do ponto de vista das trocas comerciais diretas, pouco ou nenhum significado. Desde logo, porque, por força do embargo imposto pela Federação Russa em 2014 à EU, ficou proibida a comercialização de lácteos com a Rússia e por outro, não lhes retirando significância, porque as exportações para a Ucrânia de produtos lácteos são diminutas.

No entanto, o conflito bélico tem, ao nível da atividade empresarial, colocado a indústria láctea perante desafios cada vez mais significativos com um avolumar de circunstâncias que nos deixam desconfortáveis e com sentimentos menos positivos relativamente a dificuldades e incertezas de um futuro muito próximo. O aumento brutal dos fatores de produção não deixará a indústria de lacticínios sobreviver.

A Indústria de lacticínios vinha já a registar, em resultado das alterações conjunturais, económicas e legislativas, aliadas às transformações de mercado, resultantes da crise pandémica, que são sobejamente conhecidas, uma muito significativa escalada de custos. A estes custos crescentes, junta-se a necessidade de proteger um sector primário que clama por um aumento de preços, em resultado do aumento dos preços das matérias-primas e não só. A indústria, reconhecendo a necessidade urgente por parte da produção, tem vindo a responder subindo o valor do leite à produção, que neste momento representa uma variação média nacional de 7,2% face a dezembro e 12,5% face a janeiro de 2020 e com tendência a crescer.

As perdas na cadeia de valor do sector lácteo continuam a encontrar a sua raiz no espírito concorrencial das principais cadeias de distribuição pela conquista de consumidores e manutenção de quotas de mercado. Esta atitude afeta os fabricantes, muito especificamente ao nível dos produtos mais básicos, como o leite, alguns queijos e iogurtes, e particularmente quando competem diretamente com o preço das marcas de distribuição.

As estatísticas disponíveis sobre Índice de Preços ao Consumidor (IPC) (índice reflete a variação em percentagem dos preços pagos pelas famílias para adquirir bens, ou seja, a variação do preço efetivamente pago no momento da compra) em particular a categoria leite, queijo e ovos, refletem a continua desvalorização que o sector vem sentido há vários anos, em contraciclo com o IPC relativo aos alimentos. Atualmente em 98,8 está 10 pp abaixo do IPC dos alimentos. Este caminho levará por certo à ruína de muitas empresas.

Nesta política de desvalorização, outro fenómeno que não conseguimos compreender é o diferencial de preços das MDD (Marcas Da Distribuição) em Portugal e Espanha. Com efeito, a leitura do preço em loja revela que as diferentes MDD, para leite meio-gordo UHT, apresentam um preço igual de 0,51€/litro, havendo pelo menos uma cadeia de distribuição que o comercializa o mesmo litro de leite a 0,49€. Valores recolhidos junto de algumas cadeias em Espanha apresentam para o mesmo leite meio gordo UHT MDD, o preço de médio de 0,67€/litro.

Como é possível esta diferença se o custo do litro de leite à produção em Portugal e em Espanha apesenta, uma diferença de 0,018€/litro?

É tempo de agir, de mudar atitudes, de mostrar responsabilidade e solidariedade em todos os elos da cadeia láctea.

É tempo de acabar com o financiamento “cruzado” onde a margem dos produtos de distribuição seja compensada pela margem superior imposta a outros produtos.

É tempo para permitir e aceitar negociações e, sempre que necessário renegociações de preços, em tempo efetivo, permitindo acomodar o longo esforço suportado pela indústria do aumento dos custos de produção.

O nosso país possui, do ponto de vista operacional, uma fileira láctea bastante bem organizada, com um elevado grau de modernização, bem adaptada aos mercados e às exigências dos consumidores.

As orientações percebidas nas políticas comunitárias e nacionais, no que à produção alimentos diz respeito, na atual conjuntura, estão debilitadíssimas.

Os conceitos de autoabastecimento, autoaprovisionamento e autossuficiência nos últimos dias ganharam nova dimensão. O direito à alimentação é um direito humano.

O leite e os produtos lácteos portugueses cumprem até ao momento com este desígnio: estão disponíveis, em quantidade, são nutricionalmente adequados e acessíveis.

A manutenção da disponibilidade de leite e produtos lácteos portugueses a todos os cidadãos nacionais, requer uma atuação, na óptica de ciclo virtuoso, capaz e rápida por parte da distribuição, preservando a sustentabilidade das empresas lácteas em todo o território.

*Diretora-Geral da ANIL (Associação Nacional dos Industriais de Lacticínios)

Fonte: Jornal de Notícias