Pese embora os desafios e constrangimentos, o Alltech Outlook  mostra que a produção mundial de alimentos compostos esteve em alta em 2021, com um crescimento de 2,3%, situando-se nos 1 207,9 milhões de tons. Analisando o consumo das diferentes espécies, os suínos recuperaram da Peste Suína Africana (6%), a aquicultura continua a crescer em todo o mundo (3,7%), como os bovinos de leite (1,9%) e as aves (2,3%), enquanto os alimentos para poedeiras (-1,4%) e bovinos de carne (-1,9%) inverteram a tendência dos últimos anos. Como se antevia, face à expansão do número de animais de companhia que foi uma das marcas do confinamento, a produção de alimentos para petfood registou um volume record e uma expansão, notável, de 8,2%.

Por outro lado, vale a pena referir que do top 10 a nível mundial, liderado pela China, que é seguida pelos EUA e pelo Brasil, temos apenas dois países da União Europeia (UE), a Espanha (6º) e a Alemanha (10º). Ainda assim, as tendências destes dois países são inversas entre si, ou seja, os nossos congéneres espanhóis a crescer 2,1%, impulsionados claramente pela aposta na exportação, e os alemães em retração, com -1,7%, sendo penalizados pela Covid-19 e por problemas sanitários. A França, uma grande referência no passado, continua afastada dos 10 principais produtores mundiais, repensando neste momento toda a sua estratégia.

No seu conjunto, a Europa volta a perder terreno a nível global (-1,2%), fortemente afetada pela retração do consumo nos bovinos de carne e nos ovos, consequência da pandemia e do encerramento do canal HORECA, com impactos significativos decorrentes da gripe aviária.

Desde logo, uma conclusão que não é surpresa: a produção de alimentos compostos, diretamente ligada aos efetivos animais e à tendência do consumo de produtos de origem animal, tem vindo a diminuir na Europa, mais propriamente na União Europeia. Esta tendência  acentua-se com as pressões sobre os consumidores, que , por sua vez pressionam a oferta para acautelar os impactos da produção no ambiente e no bem-estar animal, mas também modificam a procura, pela atenção dada à  dieta e à sua implicação na saúde, numa narrativa que tem muito de ideológica, difícil de combater, sobretudo quando temos acesso a alimentos com abundância, de qualidade, a preços relativamente baixos, e sistemas de produção com padrões exigentes, sem paralelo à escala global.

Certamente que ninguém de boa-fé questionará a legislação europeia em matéria de segurança alimentar, ambiente, saúde e bem-estar animal quando comparada com os países que mais crescem a nível mundial, e que são concorrentes dos europeus, em matérias-primas e sobretudo em produtos de origem animal.

Perante este quadro, finalmente, e em boa hora, a França colocou na agenda política uma questão urgente e sistematicamente adiada, a de que temos de exigir regras semelhantes nas importações de países terceiros, até para travar deslocalizações de empresas e de produções (de emissões de GEE) para esses mercados, porque interiorizámos durante a pandemia, o quão dependentes estávamos (e continuamos a estar) da China ou da Índia. Mas tal significa uma forte negociação dos acordos comerciais, assentes num novo paradigma, a sustentabilidade e o combate às alterações climáticas, e a inclusão de causas sociais ou da proteção animal. Também o combate à desflorestação, entre outros, passa por acordos de cooperação na origem e exige tempo de adaptação e notificações no quadro da Organização Mundial do Comércio (OMC), sob pena de não termos matérias-primas para assegurar a produção de alimentos para os europeus, em quantidade, qualidade e a preços razoáveis para o consumidor, ao mesmo tempo que se remunera dignamente os agricultores e se viabilizam as cadeias de abastecimento.

Para além destas questões, temos ainda os grandes desafios da década: implementação da agenda da Estratégia “Do Prado ao Prado” e da Biodiversidade, a revisão da PAC e o PEPAC, em linha com o Pacto Ecológico Europeu.

De facto, quando olhamos para a campanha eleitoral que hoje termina, verificamos que nenhum partido falou destes assuntos com a profundidade e seriedade que o tema merece:  segurança alimentar, o futuro do Mundo Rural à luz destes impactos, ou seja, a dinamização económica do interior, coesão e sustentabilidade, emprego e dignidade, a discussão do território não foi mais do que mera paisagem. A maioria das vezes os discursos ficaram condicionados pela demagogia, e sobretudo, por uma forte componente ideológica, frases simplistas, como se existisse um “nós” e um “eles” e não um País que quer crescer, agarrar as oportunidades, produzir e ser menos dependente.

Infelizmente, de Bruxelas, também não temos boas notícias. De um lado, o setor agroalimentar, que defende uma avaliação global do impacto das medidas e das metas, questiona os instrumentos políticos e financeiros para a adaptação e transição, sem recusar as grandes linhas e as ambições; do outro, os ambientalistas, talvez porque não têm de gerir empresas e empregos, não sabem o quão difícil é lidar com burocracia e custos de contexto, querem proibir e limitar, em nome do clima e de uma alimentação sustentável, sem cuidarem de saber dos estudos de impacto, que apontam para uma perda de produção, de capacidade exportadora, e de aumento de preços no consumidor.

Sem dúvida que a Comissão Europeia tem razão quando refere que os custos da inação são maiores do que as ambições, mas importa combinar sustentabilidade com competitividade e disponibilidade de alimentos, ter acesso a todas as tecnologias, sem estigmas ideológicos em matérias como as novas técnicas genómicas ou a biotecnologia, e que devemos disseminar o seu acesso a todos os tipos de agricultores, e assegurar uma coerência de políticas, na PAC e fora dela.

Não podemos esquecer que a alimentação da população é uma combinação de alimentos, dietas, mas também prazer, conforto e tradições, diversidade, cultura e respeito pelos valores e escolhas de cada cidadão.

De facto, é assustador que a Comissão Europeia não seja capaz de dar as respostas adequadas aos nossos anseios e que ela própria esteja, de algum modo, “amarrada” por uma narrativa ideológica. Precisamos de jovens no território, não podemos continuar a perder população e agricultores, e a olhar para a dimensão e para a escala como uma inevitabilidade para poder ser competitivos.

A transição necessita de inovação e esta de um enquadramento legislativo e financeiro, de políticas europeias e nacionais que apostem no investimento, na criação de riqueza, de compromissos entre as empresas e os decisores políticos. Realistas, sem demagogia, hipocrisia e ideologia.

Lamentavelmente, nada disto se falou durante a campanha.

Mas estes são os grandes temas para o pós-30 de janeiro, se não queremos hipotecar o futuro. E recusar os que nos querem impor narrativas ideológicas, que apenas nos asfixiam.

Sem medo das palavras ou do politicamente correto.

Jaime Piçarra
Secretário-Geral da IACA