Na terça-feira, o Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu a previsão de crescimento da economia global para este ano, citando perturbações na cadeia de abastecimento em economias desenvolvidas e receios com a saúde global causadas pela disseminação da variante Delta da Covid-19. Segundo o organismo internacional, esta revisão reflete as ruturas em termos de abastecimento global.

Petya Koeva Brooks, Diretora-adjunta do Departamento de Investigação do FMI explicou, numa conferência de imprensa, que “estas ruturas são o resultado de uma recuperação muito invulgar”. É esperada sempre uma recuperação após uma crise como a que provocou a pandemia, continuou, mas neste caso a oferta e a procura não estão ao mesmo nível.

“Vemos a procura recuperar mas, ao mesmo tempo, a oferta ainda não recuperou. E vemos o impacto disso em vários setores”, acrescentou.

De facto, a crise na cadeia de abastecimento está a aumentar os preços para os consumidores e a desacelerar a recuperação económica global. Porém, a Moody’s Analytics alertou para

o risco de as interrupções no abstecimento ficarem “piores antes de melhorar”.

“À medida que a recuperação económica global continua a ganhar força, torna-se mais suscetivel a ser bloqueada por interrupções nas cadeias de abastecimento”, lê-se no relatório da Moody’s, divulgado na segunda-feira.

Os controlos nas fronteiras, as restrições de mobilidade, mais a questão de não haver um certificado global de vacinação contra a Covid-19 e a crise nos transportes de mercadorias formaram uma “tempestade perfeita, onde a produção global é prejudicada porque as entregas não são feitas a tempo, os custos e os preços estão a subir e, como resultado, o crescimento do PIB mundial não será tão robusto”, adianta ainda a Moody’s, citada pela CNN.

De acordo com a agência de serviços financeiros, o maior problema desta crise de abastecimento é a falta de motoristas de camiões e transportes pesados – problema que contribuiu para o congestionamento nos portos marítimos e para a escassez de combustíveis nos postos de abastecimento do Reino Unido.

Covid-19 agrava crise nas cadeias de abastecimento

Segundo a avaliação da Moody’s, há várias “nuvens negras” a perturbar a recuperação económica global e a agravar a crise nas cadeias de abastecimento. Um dos maiores fatores é a forma distinta com que cada país está a enfrentar a pandemia da Covid-19. Enquanto a China, por exemplo, tenta ter zero casos de infeção, os Estados Unidos estão “mais dispostos a viver com a Covid-19 como uma doença endémica”.

“Isto representa um sério desafio para harmonizar as regras e regulamentos pelos quais os trabalhadores dos setores dos transportes entram e saem dos portos, assim como dos centros de abastecimento em todo o mundo”, esclareceram os analistas.

Além disso, a Moody’s considera que não há um “esforço global combinado para garantir o bom funcionamento” da rede mundial de logística e transporte.

Há, contudo, quem considere que em breve acabam as perturbações nas cadeias de abastecimento. O CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, afirmou à CNN que estes bloqueios vão terminar rapidamente.

“Isto não será um problema no próximo ano”, disse Dimon durante uma conferência realizada pelo Instituto de Finanças Internacionais, citado na CNBC. “Esta é a pior parte. Mas acho que os grandes sistemas do mercado se vão ajustar a isso como as empresas fizeram”.

Quebra no abastecimento e produção pode afetar época do Natal

Nas últimas semanas, as linhas de abastecimento do setor naval têm estado congestionadas. Por isso, começa a recear-se que as entregas de roupas, brinquedos e produtos tecnológicos estejam atrasadas, ameaçando as vendas de Natal e da Black Friday.

“Se a escassez de eletricidade e os cortes de produção continuarem, as cadeias de abastecimento mundial começam a ficar comprometidas”, alertou na semana passada Louis Kuijs, economista sénior para a Ásia da Oxford Economics.

Este congestionamento das cadeias de abastecimento e transporte têm levado ao aumento dos preços dos alimentos e à crise energética da China, por exemplo. E, em consequência, grande parte do mundo pode sofrer com os impactos destes bloqueios, visto que a China é a maior base de produção mundial de dispositivos tecnológicos, desde iPhones a consolas de jogos, além de ter grandes centros de montagem para “chips” semicondutores usados em carros e eletrodomésticos.

Até agora, várias empresas já sofreram algumas paralisações na atividade das suas instalações chinesas para cumprir as restrições locais. A Pegatron, uma das principais parceiras da Apple, disse há um mês que já estava a tomar medidas face a esta situação, enquanto a ASE Technology Holding, a maior fábrica de chips do mundo, teve que interromper a produção durante vários dias.

Segundo o Guardiana Casa Branca já alertou os norte-americanos que este ano “haverá coisas que as pessoas não conseguirão comprar” no Natal. A Apple, por exemplo, já pondera ter de reduzir a produção de iPhones 13s até 10 milhões, devido à escassez de produtos tecnológicos.

A Apple devia produzir 90 milhões de unidades dos novos modelos do iPhone este ano, mas já informou os fabricantes de que o número seria menor, uma vez que os fornecedores de chips, incluindo a Broadcom e a Texas Instruments, estavam ainda a tentar entregar os produtos.

As ações da Apple caíram 1,2 por cento na terça-feira, refletindo-se em quedas mais amplas no mercado de ações dos EUA e na Ásia, especialmente devido aos receios de que o impacto persistente da Covid-19 e os problemas da cadeia de abastecimento possam desencadear uma inflação galopante e impedir o crescimento económico.

Para além das empresas de tecnologia, os fabricantes de automóveis estão entre os mais afetados pela escassez de produtos, principalmente de semicondutores, estando a produzir 7,7 milhões de veículos a menos este ano. Muitas fábricas dos EUA suspenderam mesmo a produção devido à falta de peças.

A escassez de energia e o aumento dos preços da energia levaram ao encerramento de fábricas em grandes centros de manufatura da Ásia, como China e Coreia do Sul, nas últimas semanas, agravando atrasos já críticos em todo o sistema de logística global.

A Casa Branca já alertou os norte-americanos de que os preços podem estar mais elevados e as prateleiras mais vazias na época do Natal, tendo que ser mais pacientes.

“Haverá coisas que as pessoas não poderão ter”, disse um alto funcionário da Casa Branca à Reuters. “Mas muitos desses bens podem ser substituídos por outras coisas. Não acho que haja razão para entrar em pânico, mas todos sentimos a frustração e há uma certa necessidade de paciência para ajudar a superar esta questão”.

Fonte: RTP