A produção global de alimentos provenientes do mar poderá vir a aumentar entre 21 a 44 milhões de toneladas por ano até 2050, dependendo de vários factores, como reformas políticas na exploração piscícola e inovação na produção das rações que alimentam peixes de aquacultura.

A procura global de alimentos está a aumentar e subsistem sérias dúvidas quanto à possibilidade de a oferta poder crescer de forma sustentável. De acordo com projecções divulgadas pelas Nações Unidas (ONU), em 2050 prevê-se que a totalidade da população atinja cerca 9000 milhões de pessoas, o que se irá repercutir numa necessidade de aumentar a produção global de alimentos em 60%. A um mundo em crescimento demográfico somam-se as dietas em rápida mutação. Foi a olhar para estas previsões que a equipa liderada por Christopher Costello, professor de Economia Ambiental e dos Recursos da Universidade da Califórnia em Santa Barbara (EUA), analisou o potencial de expansão da produção económica e ambientalmente sustentável de alimentos provenientes do mar para satisfazer a procura global. Essa produção poderá aumentar entre 21 e 44 milhões de toneladas por ano até 2050.

No estudo, publicado na última edição da revista Nature, os investigadores utilizaram dados de praticamente cinco mil zonas de pesca, com indicação de unidades populacionais e dados de captura para cada espécie, a fim de projectar a necessidade de produção alimentar futura, e estimaram ainda o potencial da maricultura (aquacultura em água salgada) a nível global. A partir daí, a equipa de Christopher Costello calculou o provimento global futuro dos três maiores sectores de alimentação proveniente do oceano: pesca, maricultura de peixe e maricultura de moluscos bivalves.

Utilizando modelos bio-económicos, que têm em conta factores como a gestão económica e restrições alimentares, e comparando estimativas de oferta com cenários de procura, chegou-se à potencial produção de alimentos vindos do mar até meados do século.

A equipa de investigadores constatou que os alimentos oriundos do mar, que representam apenas 17% da actual produção de proteína animal, poderão aumentar entre 21 e 44 milhões de toneladas até 2050, o equivalente a um aumento entre 36% e 74% comparativamente à produção actual. Isto representa entre 12% a 25% do aumento estimado em toda a proteína animal necessária para alimentar 9800 milhões de pessoas nas próximas três décadas.

“Basicamente, a pergunta à qual estávamos a tentar responder era: a gestão sustentável do oceano nos próximos 30 anos significa que vamos produzir mais alimentos, ou menos?”, diz Christopher Costello, em comunicado. “Penso que muitos de nós tínhamos a ideia de que, para gerir o oceano de forma sustentável, teríamos de extrair menos, o que significaria menos alimentos do mar”, acrescenta o investigador. Mas, afinal, de acordo com o estudo, não é bem assim.

Se se apostar em reformas políticas na exploração piscícola, na inovação no fabrico de rações que alimentam os animais em criação e em melhorias na eficiência da aquacultura, é possível um aumento sustentável da produção global marinha, conclui este estudo.

Como refere o artigo, políticas ineficazes têm limitado a oferta dos alimentos provenientes do mar. Desde regulamentos que resultam numa má gestão ambiental, comprometendo a viabilidade da produção alimentar a longo prazo, até normas excessivamente restritivas, a produção tem sido limitada. Nestes casos, melhores políticas poderão aumentar a produção alimentar, evitando e pondo fim a práticas prejudiciais ao ambiente e permitindo uma expansão ambientalmente sustentável.

Para além disso, uma redução de 50% ou mesmo de 95% nas necessidades de farinha de peixe e óleo de peixe utilizados para alimentar os organismos aquáticos em cultivo, substituindo-os por proteínas de origem vegetal, por exemplo, de forma a dissociar a aquacultura da pesca, pode alterar substancialmente a curva de oferta. Isto já acontece para muitas espécies, como o salmão do Atlântico, para o qual a utilização de ingredientes à base de peixe na sua alimentação foi reduzida de 90% nos anos de 1990 para apenas 25% actualmente.

Estes factores, aliados ao crescimento demográfico humano e às projecções de aumento dos rendimentos até 2050, bem como à consciência de que os alimentos provenientes do mar são particularmente nutritivos, irão impulsionar a sua procura futura, que consequentemente se irá repercutir na produção.

“À medida que as dietas das pessoas mudam, ao ficarem mais ricas, que a população cresce e se apercebe de que o peixe é mais nutritivo e mais saudável do que outras fontes de proteína animal, a procura cresce”, refere o investigador da Universidade da Califórnia. “Isso aumenta os preços e cria um incentivo económico para gerar alimentos a partir do mar”, remata.

Fonte: Público