Os insetos, a par das algas e das leguminosas, têm sido apontados como alimento chave do futuro, principalmente como alternativa à farinha de peixe e de soja nos alimentos compostos para animais de produção.

A população mundial deverá alcançar os nove mil milhões de pessoas até 2050. Igualmente irá aumentar para mais do dobro a procura por produtos de origem animal (IPIFF, 2018). Wu et al. (2014) referem que este aumento no consumo da carne será mesmo de 72% nos próximos 35 anos. A par deste crescimento, a produção mundial de carne também aumentará em 20% até 2030, segundo as projeções divulgadas pela FAO, destacando-se que 77% deste aumento irá dar-se nos países em desenvolvimento, sobretudo no Brasil, Argentina, China, Índia, México e Paquistão e 23% nos mais desenvolvidos (EFE, 2018).

Huis (2013) refere que o aumento do poder de compra e o aumento do êxodo rural nos países em desenvolvimento, particularmente na Ásia, estão a provocar mudanças nos padrões de consumo de carne, podendo a China aumentar em quase 50% o seu consumo até 2030, o que também provocará um aumento da produção de cereais para alimentação animal.

Numa altura em que também se fala das crescentes ameaças à soberania alimentar, tais como as alterações climáticas e o esgotamento de recursos naturais (Poshadri et al., 2018; Spang, 2013), enfrentamos ainda a escassez de terra para culturas aráveis, particularmente no continente americano, onde 70% das florestas foram transformadas em pastagens ou campos de produção de soja (Kohl, 2016) e a escassez de água, uma vez que se estima que a agricultura e a pecuária consumam 70% da água doce existente (Chang et al., 2019).

A insuficiência, na Europa, de proteína (associada à dependência de mercados internacionais, à flutuação dos preços, às alterações climatéricas, às questões de natureza ambientais, bem como às questões de natureza social e política relacionadas com a utilização de organismos geneticamente modificados na cadeia alimentar) obriga à procura de fontes alternativas às matérias-primas proteicas convencionais (Costa et al., 2018).

Espera-se que a aquacultura forneça 62% da oferta global de pescado até 2030, uma vez que o consumo de peixe irá aumentar 50% em relação a 2006. Isto significa que a procura por farinha de peixe também aumentará mas, por outro lado, as mudanças climáticas, o declínio na disponibilidade e volatilidade dos mercados fazem com que seja necessário encontrar uma alternativa à mesma (IPIFF, 2018).

Tacon e Metian (2008) referem que a redução drástica de farinha de peixe deve-se, sobretudo, a fenómenos climáticos extremos tais como o El Niño em 2005. O aumento nos preços de alimentos e das rações no futuro estimulará a busca de fontes alternativas de proteína (Huis, 2013), portanto, melhorar a sustentabilidade da produção de alimentos é imperativo para atender à procura crescente por alimentos e para enfrentar os desafios ambientais atuais e urgentes.

Assim, facilmente compreendemos que é necessário encontrar fontes alternativas de proteína que sejam seguras, ambientalmente sustentáveis e economicamente viáveis para utilização na indústria de alimentos para animais. Uma das soluções recentemente apontadas tem vindo a ser a produção de insetos (FAO, 2006; Premalatha et al., 2011), a par de outras tais como o uso de leguminosas e a produção de algas.

Quais as vantagens em relação a outras espécies de pecuária?

Os aspetos positivos da utilização de insetos para alimentação são que podem fornecer um alívio considerável a muitos dos desafios ambientais impostos pela pecuária convencional. De acordo com Huis (2013) e Steinfeld et al. (2006), as emissões de gases com efeito de estufa provenientes da produção pecuária, incluindo o transporte de animais e produção de alimentos para os mesmos, representam cerca de 18% das emissões globais instigadas pelo Homem.

Os insetos emitem menos gases com efeito de estufa do que a pecuária convencional (Jansson e Berggren, 2015). As larvas de Tenebrio molitor e Zophobas morio não produzem metano (Oonincx e Boer, 2012).

Tal como as aves, a maioria dos insetos excretam o azoto como ácido úrico. Normalmente, os excrementos dos insetos são secos, o que também significa que a conversão do ácido úrico em amoníaco deve ser relativamente lenta, reduzindo assim as emissões deste último (Halloran et al., 2018). Oonincx et al. (2010) afimam que a produção de larvas, grilos e gafanhotos emitem 100 vezes menos gases com efeito de estufa e 10 vezes menos amónia que a produção de suínos e bovinos.

Continua…

Nota: Artigo publicado originalmente na Tecnoalimentar 24

Fonte: Tecnoalimentar