“Tem-se assistido uma grande evolução do acompanhamento reprodutivo das vacadas, com os produtores a recorrerem cada vez mais à inseminação artificial (através de protocolos de sincronização de cios) e a diagnósticos de gestação (maioritariamente por ecografia), bem como exames andrológicos aos touros”, considera João Diogo Ferreira, médico veterinário, quando fala da reprodução de bovinos de carne em extensivo.

“Quase todos os produtores tinham o touro o ano inteiro com as vacas, mas agora é rara a vacada que não tem época reprodutiva”, salienta o também responsável da Agriangus, a primeira exploração de bovinos de carne da Península Ibérica a utilizar esta tecnologia de monitorização reprodutiva em extensivo.

Esta mudança dos produtores foi, certamente, estimulada pelo facto de o subsídio ter passado a estar ligado à produtividade, sendo apenas atribuído a vacas que tenham partos com um intervalo máximo de 18 meses, explica. Além disso, sublinha o responsável, o setor está cada vez mais profissionalizado.

José Pais, secretário-técnico da Associação de Criadores de Bovinos Mertolengos (ABCM), concorda com a opinião do veterinário: “Os produtores perceberam que não podiam deixar de tomar ações no foro reprodutivo, porque são muito importantes para o resultado líquido da exploração”, diz à VETERINÁRIA ATUAL.

“Foram surgindo, no plano reprodutivo, ferramentas e serviços para dar apoio ao produtor, como serviços clínicos dedicados à reprodução com acompanhamento veterinário, exames de gestação e andrológicos, além de várias tecnologias de precisão.”

Sistemas de monitorização reprodutiva e de bem-estar

Existem vários sistemas que, na maioria, utilizam smart tags (colares, brincos ou podómetros) que comunicam com antenas colocadas em locais estratégicos, transmitindo as informações para as unidades de processamento para que o produtor, o engenheiro zootécnico e o médico veterinário possam analisar os dados, em tempo real, nos seus computadores, tablets ou smartphones — e agir em conformidade.

São sistemas a que o produtor pode ter acesso por valores que já não são proibitivos, segundo João Diogo Ferreira, e que têm vários ‘pacotes’: fazer só a deteção de cios; a deteção de cios e indicadores de saúde e bem-estar; e todos os anteriores, mais o comportamento de grupo.

“Além das antenas terem um bom desempenho, os brincos têm a capacidade de armazenar informação durante 12 horas, não sendo necessária a cobertura da totalidade das explorações”, explica o médico veterinário da Agriangus, criadores de bovinos da raça Aberdeen-Angus em linha pura.

Redução do uso de protocolos de sincronização

Uma das funcionalidades destes colares ou brincos é a deteção de cios, permitindo que se insemine no período ótimo para maximizar a taxa de conceção. E são uma excelente alternativa aos protocolos de sincronização de cios, defende João Diogo Ferreira, “não sendo necessário recorrer ao uso de hormonas”, necessárias nos protocolos de sincronização para inseminação artificial em tempo fixo. “Estas têm uma conotação negativa na sociedade, além de que nos cios naturais os resultados são muito mais interessantes.”

O criador adianta que “com a inseminação após a sincronização dos cios” se atingiam “taxas de sucesso entre os 52% e os 53% e com a deteção de cios naturais pelos brincos a taxa aumentou para 59%”.

Este sistema permite ainda racionalizar melhor a gestão reprodutiva, dado que identifica os animais em anestro, permitindo assim ao criador e ao médico veterinário identificar as causas e tomar medidas corretivas em vários planos (alimentar, ambiental ou sanitário).

Uma simbiose entre criador e veterinário

João Diogo Ferreira sublinha que a colaboração entre o produtor e o seu médico veterinário terá de ser ainda mais estreita, porque a monitorização da atividade dos animais, nomeadamente da ingestão e ruminação, são barómetros de saúde e eficiência.

Com estes sistemas, o criador terá de fazer um investimento não só no equipamento, mas na exploração como um todo, para garantir um aumento da eficiência da vacada. “Será necessário formar os colaboradores (inseminação, maneio e interpretação de dados), deverão existir instalações capazes, cobertas e com iluminação adequada, possibilitando inseminar em qualquer dia, a qualquer hora, com facilidade.” O médico veterinário defende assim que “estes sistemas são facilmente rentabilizados em explorações em que o mérito genético dos animais seja elevado, dado que agiliza o progresso genético e monitorização do efetivo.”

Rápido retorno económico

“O retorno do investimento pode ser quase imediato”, afirma. “O custo é o que pagamos e o valor é o que levamos para casa e, neste caso, o valor é muito mais elevado que o custo. Bastará haver a deteção de baixa fertilidade de um macho e a deteção contínua de fêmeas com afeções reprodutivas, ou pouco eficientes, para justificar o investimento.”

O médico veterinário tem quatro explorações e utiliza “o sistema SCR da Allflex em duas delas (cem vacas). Uma das explorações é onde fazemos a recria das novilhas, possibilitando inseminar precocemente recorrendo a touros com facilidade de parto e muitas vezes usando sémen sexado fêmea (acelerando ainda mais o progresso genético)”.

O secretário-geral da ACBM concorda que “estes sistemas são particularmente interessantes para efetivos de reprodutores, que se dedicam a apurar a genética de raças seletas”. José Pais refere ainda que “há outra inovação que começa também a ser usada nos bovinos de carne em extensivo: a transferência de embriões”. A Associação fez recentemente “uma experiência, em colaboração com a Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa e o Banco Português de Germoplasma Animal, no âmbito da preservação das raças autóctones, que teve sucesso uma vez que a mãe e o vitelo estão bem”.

Otimização de resultados

Além da inseminação artificial, João Diogo Ferreira recorre ao sistema para otimizar resultados nas transferências de embriões. Sabendo com precisão o momento em que se iniciam os primeiros sinais de cio, tal permite transferir os embriões com sincronias ideais entre dadoras e recetoras. Segundo o produtor, “normalmente uma boa taxa de sucesso com observação visual dos cios situa-se perto dos 45%; com o uso deste sistema temos conseguido chegar a taxas que rondam os 70%”.

Além de voltar a sublinhar que o sistema é uma ferramenta ímpar na monitorização da saúde e bem-estar dos animais, refere também que tem permitido uma aprendizagem contínua no que respeita ao comportamento dos animais nas várias fases produtivas, possibilitado otimizar o maneio das explorações em prol do bem-estar e eficiência dos animais.

*Artigo publicado originalmente na edição de abril de 2020 da revista VETERINÁRIA ATUAL.

Fonte: Veterinária Atual