Os automóveis apitavam, desesperados pelo regresso a casa. A cena repetia-se todos os dias, para desespero de quem não podia fugir ao percurso pendular casa-trabalho em hora de ponta. Antes da pandemia da Covid-19, antes de o mundo ter descoberto à força as maravilhas do teletrabalho, mais de metade dos portugueses fazia diariamente o mesmo trajecto, em carro próprio ou em transportes públicos – e, sem piedade, engrossava as filas de trânsito, causava engarrafamentos, poluía a atmosfera, zangava-se, gritava, buzinava, e perdia qualidade de vida. Gastava tempo, saúde e dinheiro.

Fazendo contas, segundo dados fornecidos pelo The Intergovernamental Panel of Climate Change (IPCC), órgão das Nações Unidas que avalia as descobertas científicas relacionadas com as alterações climáticas, bastaria retirar 50 mil pessoas das estradas de Lisboa para poupar mais de 220 milhões de euros por ano. Poderemos dizer que estes são apenas uma parte dos custos dos engarrafamentos na capital portuguesa.

Antes da pandemia, cerca de 500 mil pessoas desesperavam com as filas de trânsito em Lisboa. Cada uma delas perdia, em média, 42 minutos por dia, de acordo com o índice de tráfego publicado o ano passado pela empresa TomTom. A capital portuguesa era mesmo a cidade ibérica com mais trânsito, ultrapassando Madrid, Barcelona e o Porto. No balanço desastroso dos custos do trânsito deviam ser contabilizadas as horas perdidas, além do valor do combustível, o custo social do carbono por tonelada e os efeitos no bem-estar físico e psicológico dos portugueses.

Com a pandemia, à força e sem alternativa, percebemos que é possível usar as vantagens das tecnologias para desenvolver várias funções à distância. As ferramentas estavam todas disponíveis. A resistência, já sabemos, era cultural. A Covid-19 trouxe essa evidência: em apenas poucos dias toda a gente se adaptou ao teletrabalho e isso foi extraordinário.

Repito: a resistência era cultural. Em 2018, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, 79% dos agregados familiares em Portugal tinham ligação à internet em casa. Segundo dados do Barómetro de Telecomunicações, o país conta com mais de nove milhões de utilizadores de telemóvel, 96,5% da população.

Na minha empresa, e muito antes da pandemia, já tinha dois colaboradores (num total de cinco) 100% em teletrabalho. E digo com convicção: é-me indiferente se estão na empresa ou em casa, desde que cumpram os objectivos que lhes foram propostos. Têm apenas de entregar os projectos a tempo e horas, com a qualidade exigida, e contribuir para a sustentabilidade da empresa. Não importa se os fazem no fim-de-semana, à noite, em casa, na esplanada ou na praia.

Antes da pandemia, as empresas portuguesas não estavam tão despertas para o potencial activo do teletrabalho como para o passivo – isto é, era mais visto como uma forma de reduzir custos do que de melhorar a produtividade do trabalho e a qualidade dos produtos e serviços. Hoje, a perceção dos especialistas é que a produtividade aumentou com o teletrabalho. O desgaste e as horas perdidas estão a ser aproveitados para outras coisas, incluindo trabalhar. A principal desvantagem apontada pelos empresários é a maior dificuldade em controlar e supervisionar os teletrabalhadores, o que revela o receio que os responsáveis têm de perder o controlo sobre os seus subordinados e de não serem capazes de gerir eficazmente à distância.

A tecnologia anda à velocidade da luz. Se o propósito é facilitar a vida a pessoas e empresas, é necessário que as mentalidades também acelerem. Talvez, depois, se entre numa agradável velocidade de cruzeiro.

Umas das principais vantagens do teletrabalho é o impacto que isso pode ter no ambiente – e reflectir sobre isto este é a principal intenção deste artigo. Ele é agora visto como instrumento para “aplanar as horas de ponta” na curva da mobilidade. Permite algo crucial – e não apenas em época de pandemia – que é a flexibilização dos horários para não sobrecarregar o transporte público.

Além disto, a partir de agora, já ninguém achará razoável apanhar um avião para ter uma reunião em Londres, demorar uma hora, e regressar no mesmo dia. Grande parte das reuniões internacionais serão esvaziadas de presença física porque, simplesmente, hoje como ontem, isso não faz qualquer sentido. Quem, nos últimos meses, participou em reuniões destas à distância percebe que, afinal, a coisa funciona. E os ganhos ambientais são efectivamente brutais.

São necessárias muitas contas para avaliar os impactos do teletrabalho, mas a verdade é esta: ele ajuda a resolver não só a questão da qualidade do ar, baixando emissões de carbono e de outros poluentes, mas também os problemas do aquecimento global e das alterações climáticas.

Outro dado importante: quem trabalha em casa usa mais os meios digitais e menos papel, recorre menos ao descartável e às embalagens e ganha tempo livre que pode significar mais disponibilidade para se dedicar a causas sociais ou ambientais – ou a si próprio, à família e aos amigos.

Além disto, o teletrabalho poderá deslocar pessoas para cidades de média dimensão, ou mesmo para o campo, fugindo do receio de contágio das grandes metrópoles, da confusão e do stress, e encontrando o pretexto certo para desenterrarem a coragem adormecida de fazerem algo que já estava nas suas aspirações há muito tempo.

Claro que falar de teletrabalho não é apenas falar de emissões poluentes. As conclusões de alguns estudos mostram um benefício ambiental e financeiro, mas é precisa uma visão integrada. Vários factores devem ser equacionados. O ganho ambiental nas deslocações para o trabalho só é válido se o dinheiro poupado não for aplicado noutras viagens, ou seja, noutras emissões poluentes, como alertou recentemente, e bem, a organização ambientalista Zero, que defende que as consequências do teletrabalho são “complexas e difíceis de prever” e “não devem ser vistas apenas do ponto de vista ambiental”, mas sim “enquadradas no desenvolvimento sustentável”. Nesta perspetiva, pesam questões como quem paga as despesas da internet, o subsídio de refeição (que, na minha opinião, deve continuar a ser pago), ou os horários, que não podem ocupar desastrosamente todo o dia do trabalhador.

As pessoas foram para casa devido à Covid-19 e as cidades transformaram-se em monstros de betão. Já que agora faltam carros, que se aproveite e se implementem outras soluções para cidades mais sustentáveis. E digo mais: quem tem competências no ordenamento do território e protecção do ambiente já devia estar a trabalhar. O excesso de deslocações motorizadas é um problema de saúde pública. As cidades têm de mudar, tornar-se mais resilientes, e este é o tempo para o fazer. Não se pode ignorar a agenda ambiental, a aposta nas energias renováveis, nas eco-taxas, nos transportes públicos sustentáveis, na economia circular, na protecção dos espaços naturais.

Notem: o eco-turismo ou a eficiência energética dão emprego, a requalificação urbana e a economia verde empregam mais pessoas do que as grandes obras públicas. O momento criado pelo novo coronavírus deve servir para a humanidade repensar a forma como usa a natureza e não voltar ao “business as usual”. Defendo que crescimento que implique mais poluição é um mau crescimento.

A humanidade não está a viver apenas a crise da Covid-19. A par desta, está também a sofrer, e muito, com a crise das alterações climáticas, do ambiente, das desigualdades e da dívida pública e privada – e estas “pandemias”, por mais que nos atirem areia para os olhos, já vinham de trás.

A opinião Ana Rita Ramos

Fonte: SAPO