Eram 5 horas de uma tarde nos primeiros dias de maio, eu tive de parar a sementeira do milho para abastecer o semeador com semente e adubo, que deixara à sombra de umas árvores junto à ribeira da Granja. Aproveitei a sombra e a paragem para merendar durante 10 minutos e, de caminho, espreitar as novidades no Facebook, para variar das notícias sobre o Covid19 que passavam nos noticiários de todas as rádios. A primeira publicação que me apareceu era do Farmer Tim, agricultor canadiano que, a 7000 km de distância, por esses dias, fazia o mesmo que eu, semeava milho.

Tim May é a terceira geração de uma família de produtores de leite em Ontário, no Canadá. “Farmer Tim” (agricultor Tim) foi a alcunha que lhe deram as crianças que visitavam a sua vacaria para conhecer a agricultura que ele agora mostra no seu blog diariamente. No dia anterior, um colega agricultor gozara com uma foto do seu velho semeador de milho de 4 linhas. Ele respondeu então que sim, é pequeno, já não se veem muitos daqueles semeadores, mas aquele serve os propósitos da sua quinta, porque ele não tem centenas de hectares para semear, consegue semear toda a terra em 1 ou 2 dias. Já está pago há muito tempo e ainda o partilha com outro vizinho (como o meu, comprado em sociedade com outro agricultor há 20 anos, em troca de outro mais pequeno, também de sociedade); Explicava ainda que a máquina era suficientemente pequena para passar nas entradas pequenas e semear os campos pequenos e no final da campanha pode esquecê-lo num canto do armazém e guardar até à próxima campanha. Não é bem “esquecer”, precisa de uma boa lavagem e lubrificação. Tim gostaria (como eu) de ter um semeador maior, com GPS e outras tecnologias que já semeiam pelos nossos campos. Lá, como cá, também há a opção de contratar um prestador de serviços. É uma opção possível, tem um certo custo e às vezes temos de esperar pela nossa vez. Mas isso são opções que cada agricultor deve tomar na sua liberdade de empresário de um país democrático.

Contudo, a mensagem principal, que quero sublinhar aqui, foi a sua frase final: “Há espaço no mundo para agricultores de todas as formas e tamanhos. Vai ser preciso uma equipa de pequenos e grandes agricultores para alimentar o mundo”.

O tamanho das coisas e das empresas é sempre relativo. Para os padrões do Canadá ou dos Estados Unidos a quinta do Tim pode ser pequena. Em muitas regiões do mundo seria uma grande empresa agrícola. Com um hectare de montado no Alentejo morremos à fome, com um hectare de estufas na Póvoa ou no Oeste temos trabalho e rendimento para uma família…

Ter um vaso com ervas aromáticas na varanda ou uma galinha numa gaiola não basta para fazer de alguém agricultor, mas a partir de quantos metros de quintal, quantos coelhos ou quantas galinhas podemos considerar alguém “agricultor”? Pode parecer uma pergunta descabida, mas há uns anos atrás fui chamado à junta de freguesia para ajudar a indicar os agricultores existentes cá na terra, para serem depois visitados pelo recenseamento agrícola, e havia uma tabela, de um número mínimo de galinhas ou coelhos ou do tamanho do quintal, para justificar o inquérito…

O importante é não termos vergonha de sermos “pequenos” na área de cultivo ou antigos nas máquinas e tratores, nem vaidade de sermos grandes, mas cada um aproveitar as suas condições para cultivar a terra e criar os animais da melhor forma possível para darmos o nosso contributo nessa equipa que alimenta o mundo. Boas sementeiras, boas regas, boas colheitas!

(Artigo para a revista Mundo Rural de junho 2020)

#carlosnevesagricultor

Fonte: Agroportal