A partir da segunda etapa da Revolução Industrial (1860) e, principalmente, na primeira metade do século XX, ocorreram avanços científicos e tecnológicos extraordinários em diversos domínios, nomeadamente no âmbito da agricultura e da farmacologia, com destaque para os produtos obtidos por síntese química pelo Homem, designadamente adubos, pesticidas, antibióticos e vacinas (actualmente a biotecnologia está também a ser usada na produção de fármacos); acrescente-se, dado o seu uso generalizado e porque se estima que tenha salvado 177 milhões de vidas (Pinker, 2018), o composto químico denominado hipoclorito de sódio, usado designadamente na desinfecção da água potável, evitando diversas doenças tais como cólera, hepatite A e febre tifóide – que traz à memória a causa da morte do “Muito Amado” D. Pedro V (e mais três irmãos), que anos antes se tinha revelado muito temerário ao visitar os moribundos de duas epidemias horríveis – uma de cólera e outra de febre amarela (nota: há cerca de três décadas, ao regressar de um país estrangeiro, foi-me diagnosticada também febre tifóide, mas a infecção bacteriana foi prontamente curada com o uso de um antibiótico específico).

Como consequências mais salientes dos progressos científicos em apreço, destacamos: i) no mundo, desde 1860 até hoje, a esperança de vida média subiu de 31 para 72 anos (actualmente, em Portugal atinge 81 anos), devido principalmente ao decréscimo da mortalidade infantil; ii) a fome foi erradicada de vastas regiões do mundo, se bem, por razões de carácter estrutural, ainda afecte presentemente uma em cada nove pessoas, sobretudo na Ásia e em África (em Portugal o consumo calórico sofre oscilações, mas em média é de 3834 kcal per capita, muito superior ao recomendado, razão por que quase metade da população apresenta excesso de peso); iii) a população mundial subiu de mil milhões até 7,7 mil milhões actualmente, estimando as Nações Unidas que atingirá 11,2 mil milhões em 2100; iv) nos últimos 100 anos, em Portugal os homens cresceram quase 14 cm e as mulheres 12,5 cm (o que se poderá associar ao maior consumo de proteínas de origem animal).

Estes resultados surpreendentes devem-se em grande parte aos “químicos” obtidos por síntese pelo Homem, sendo que, a partir sobretudo da década de 1960, os progressos científicos começaram a ser atacados, nomeadamente por correntes ideológicas de índole diversa, manifestando preferência pelos produtos naturais – produzidos sem intervenção humana. Mas afinal os produtos naturais não são também produtos químicos, cujos átomos se ligaram por reacções químicas?

Mais: cabe notar que mais de metade das substâncias químicas testadas por Ames e Gold (1999) – tanto sintéticas, como naturais – revelaram actividade carcinogénica quando administradas, em doses elevadas, a animais do laboratório. Muitos alimentos comuns (batata, cenoura, pão, bebidas com álcool etílico, etc.) contêm substâncias potencialmente cancerígenas e hoje poderiam não passar pelo crivo da segurança dos alimentos (já não menciono potentes venenos naturais, como a cicuta ou os inúmeros cogumelos venenosos).

O que antecede não deverá conduzir-nos à anorexia – porque na realidade ao consumirmos os referidos alimentos somos expostos a substâncias perigosas mas em doses muito fracas.

No âmbito da agricultura importa destacar, em primeiro lugar, a síntese do amoníaco(𝑁𝐻3) pelo denominado processo de Haber-Bosh, tendo Fritz Haber sido laureado com o Nobel da Química de 1918. A partir do amoníaco fabricam-se adubos azotados que após a II Grande Guerra têm sido amplamente utilizados na fertilização das culturas, nas quais o azoto é frequentemente o nutriente vegetal mais limitante; estima-se que a aludida descoberta tenha até hoje salvado da fome cerca de três mil milhões de pessoas (Fiolhais & Marçal, 2018).

Aconteceu, porém, que em 1945, nos EUA, a “doença azul dos bebés” ou metahemoglobinémia foi associada a teores elevados de nitratos em águas utilizadas na reconstituição de leite administrado, via biberões, a bebés. Se bem que se trate de uma doença extremamente rara e os dados epidemiológicos actualmente disponíveis não confirmem a existência da referida associação, mas porque afectou jovens seres humanos, criou-se um clima de preocupação e foi publicada legislação estabelecendo um teor máximo do ião nitrato na água potável, embora existam opiniões contraditórias sobre esta matéria.

Cabe notar que em documento publicado pela Comissão Europeia, em 20.05.2020, sublinha-se que importa evitar a utilização excessiva de azoto na agricultura, porque tal conduz a emissões de óxido nitroso para a atmosfera.

Em qualquer circunstância, os nitratos e os pesticidas de síntese, desde que são utilizados têm constituído a bête noire dos agricultores, que entretanto conseguiram produzir alimentos para o triplo da população mundial e erradicaram a fome em amplas regiões do mundo.

No que à sanidade vegetal diz respeito, recorde-se que as plantas segregam os seus próprios pesticidas (biopesticidas) para se defenderem contra fungos, insectos e outros predadores. Todavia, em muitas circunstâncias aqueles revelam-se insuficientes, razão por que foram bem acolhidos os pesticidas obtidos por síntese química pelo Homem. Mesmo assim, a FAO estima que, actualmente, as pragas e as doenças das plantas sejam responsáveis pela perda de cerca de 40 por cento das culturas alimentares no Mundo.

O DDT foi o primeiro pesticida moderno, descoberto em 1939 por Paul Müller, que viria a receber o Prémio Nobel em 1948. Começou a ser usado em larga escala em 1941 para o combate à malária. Em 1970, num relatório da Academia das Ciências dos EUA concluiu-se: «Em pouco mais de duas décadas, o DDT permitiu prevenir 500 milhões de mortes, que sem ele teriam sido inevitáveis.»

Os manipuladores de DDT, em fábricas de síntese e de formulação, e que foram seguidos ao longo de muitos anos por equipas médicas, continham nos tecidos adiposos teores da ordem dos 600 ppm, sem que tenham manifestado qualquer sintoma de intoxicação.

Os resultados de investigações recentes, publicados em 2002 e 2006, por duas organizações internacionais (CDC e OMS), classificaram o DDT como «ligeiramente danoso» para os seres humanos, afirmando que tinha mais benefícios do que prejuízos para a saúde em muitas situações, como é o caso dos campos de refugiados infestados de mosquitos, conforme sublinha Hans Rosling (2019) – médico e professor universitário em Estocolmo, que durante duas décadas trabalhou nos países mais pobres do mundo, como Moçambique (onde aprendeu português) e que tinha como sonho uma visão do mundo baseada em factos (ver Factfulness, 2019). Hans intitulava-se um «orgulhoso membro» da organização dos Médicos Internacionais para a Prevenção da Guerra Nuclear, distinguida com o Prémio Nobel da Paz em 1985.

Aconteceu, porém, que na década de 1940 foi feita pouca investigação sobre os efeitos secundários do DDT – talvez por ter sido o primeiro insecticida de síntese – e só na década seguinte se levantaram receios acerca da acumulação de concentrações de DDT na cadeia alimentar, incluindo os peixes e até as aves.

Esta situação foi exposta em 1962 por Rachel Carson, no seu livro Primavera Silenciosa, o que contribuiu também para que as autoridades competentes passassem a submeter os produtos fitofarmacêuticos a análise rigorosa de risco sanitário não só para a defesa da saúde do consumidor, mas também do ambiente, com vista à salvaguarda das espécies não visadas, nomeadamente aves e mamíferos, biota aquática, antrópoles, minhocas e organismos do solo.

Os efeitos secundários supramencionados, justamente divulgados por Rachel Carson, criaram, porém, um clima de medo – fomentado por lobistas e alguns órgãos de comunicação (“o medo vende”) –, que quase atingiu a paranoia (quimiofobia).

Mas, como se compreende, as culturas agrícolas têm de ser protegidas, não só pelos biocidas segregados pelas plantas mas também por acção do Homem, pois só assim é possível atingir elevadas produtividades, conducentes a produções mundiais crescentes, seguras e a custos de produção baixos que permitam alimentar uma população global com tendência para aumentar, sem que se tenha de ampliar as áreas cultivadas à custa da desflorestação; acresce que a presença de fungos em alimentos vegetais – produzidos quer em modo de produção convencional, quer em modo de produção biológico – pode contaminá-los com micotoxinas que, na sua maioria circula na cadeia alimentar sem ser destruída, podendo ter efeitos nocivos para o Homem, inclusive na etiologia do cancro do fígado e do esófago (Soares, 2003).

Obviamente que os biocidas naturais e os produtos fitofarmacêuticos têm de ser tóxicos para os agentes que pretendem combater, mas os pesticidas devem ser devidamente aprovados, atendendo à sua toxicidade para os consumidores e o ambiente, definindo, para cada cultura, doses e número máximo de aplicações, intervalos de segurança e limite máximo de resíduos (a biotecnologia e o desenvolvimento de produtos de base biológica representam novas técnicas promissoras no âmbito da fitossanidade).

De salientar que no documento emitido em 20.05.2020 pela Comissão Europeia, dá-se ênfase à utilização sustentável dos pesticidas, propondo-se o reforço das disposições relativas à Protecção Integrada – uma prática adoptada pelos agricultores portugueses desde a década de 1980 e generalizada na sequência da publicação da legislação pertinente ( Dec. Lei 256/2009 de 24 de Setembro e Lei 26/2013, de 11 de Abril); fundamentalmente monitorizam-se os inimigos das culturas, dá-se preferência aos meios de luta não químicos e utilizam-se os produtos fitofarmacêuticos ao mínimo necessário e tendo em conta o alvo biológico em vista, com o mínimo de efeitos secundários.

O controlo nacional referente ao ano 2017 de resíduos de pesticidas em produtos de origem vegetal – provenientes do modo de produção convencional e do modo de produção biológico – revela que, em ambos os modos de produção, a quase totalidade dos produtos de origem nacional analisados obedece aos estritos requisitos legais atinentes aos pesticidas (DGAV,2019).

Em conclusão, verifica-se que após a segunda etapa da Revolução Industrial e, em especial, no pós-guerra, a síntese química e, mais recentemente, a engenharia genética, representam duas áreas científicas que vêm contribuindo enormemente para a melhoria, sem precedente histórico, da alimentação e da saúde de uma população em crescimento acelerado, sem paralelo no passado da humanidade; acresce que, no futuro, é expectável que venham a emergir tecnologias disruptivas, susceptíveis de produzir, a baixo custo, alimentos em laboratório.

Fonte: Agroportal