O país e o mundo jamais serão o mesmo. Entramos numa nova era: o antes e o depois do COVID-19. Ninguém tem dúvidas do impacto de que este ser “horribilis”, invisível e indesejável tem e terá nas nossas vidas.

O mundo parou… Os voos foram cancelados, o petróleo perdeu grande parte do seu valor, numa sociedade que se viu forçada a reduzir o seu lado consumista, para comprar apenas o essencial; o aperto de mão e a saudade ganham outro significado, a natureza regenera-se rapidamente e os animais selvagens visitam as cidades vazias desprovidas de humanos, automóveis, ruídos e da azáfama antes habituais.

2020 marcará para sempre as nossas vidas.

Será esta uma oportunidade para ganharmos consciência da nossa insignificância enquanto seres humanos?

Será esta uma oportunidade para refletir e mudar os nossos hábitos?

Será esta uma oportunidade para cuidar da natureza para que esta cuide de nós?

As crises são excelentes oportunidade para atualizar o nosso “GPS”, procurar novos caminhos introspetivos, talvez nunca antes percorridos em busca de novos itinerários. Esta epidemia será a maior catástrofe desde a 2ª Guerra Mundial e o maior desafio que a minha geração enfrentará.  É, agora mais do que nunca, importante viver o presente, com o conhecimento adquirido no passado para projetar um novo futuro.

Num mundo em constante mudança, o COVID-19 dá-nos várias lições: a poluição do ambiente não é causada pela agricultura como afirma maior parte da opinião pública; esta crise é para a grande distribuição uma oportunidade de obter mais lucro e o país e o ambiente precisam urgentemente que mudemos os nossos hábitos

Como diz o velho ditado “Não há pior cego do que aquele que não quer ver”.

As discussões relacionadas com o ambiente ganharam grande destaque nos meios de comunicação social. Este é um tema sensível que nos afeta a todos, porque na natureza está a origem de uma sociedade saudável, equitativa e bem-sucedida.  Nos últimos meses intensificou-se o ataque à agricultura, nomeadamente à pecuária, por ser considerada como a principal causa da poluição.

É indiscutível que a agricultura como todas as atividades humanas geram poluição, mas como a ciência já afirmava, a pecuária não tem tanto impacto na poluição como defendia até então a opinião pública. Aliás a agricultura é o único setor de atividade que retém o CO2, pois com a fotossíntese as plantas captam o dióxido de carbono e libertam o oxigénio.

Este tempo novo deixou claro quem são realmente os verdadeiros responsáveis pela poluição do planeta. O coronavírus conseguiu o impensável: parar o mundo. Provocou uma paragem na indústria e em todas as atividades que contribuem para o aquecimento global do planeta, destruição da natureza e dos seus recursos, reduzindo assim consideravelmente os níveis de poluição mundial.  Um estudo levado a cabo por uma universidade Italiana, detetou a presença do novo coronavírus em partículas de poluição atmosférica, o que poderá evidenciar que a pandemia se propague com maior facilidade em locais mais poluídos.

Torna-se, por isso, imperativo proteger os ecossistemas, com vista a reduzir a propagação de doenças e agentes patogénicos e aumento de mortes.

“Em altura de crises enquanto uns choram outros vendem lenços de papel”

A alimentação é uma necessidade básica do ser humano. Agora, mais do que nunca é fundamental mantermo-nos saudáveis, optar por uma alimentação rica e variada para ter um sistema imunitário saudável e resistente para ajudar a combater o vírus.

Com as feiras e mercados fechados, as grandes superfícies comerciais são as mais procuradas para abastecer as despensas das famílias e são muitos os pequenos produtores que destroem as suas plantações, porque é impossível parar o ciclo da Natureza. As plantas e as flores continuam a crescer, as vacas, ovelhas e cabras continuam a produzir leite. Na agricultura não podemos fazer uma pausa!

Com uma visão estratégica apurada a grande distribuição aproveita esta oportunidade para relembrar os portugueses, através do seu marketing que ajuda os produtores nacionais. De facto, sabemos que a alface paga ao produtor a 0.20 cêntimos é vendida a 2 €, o borrego pago a 2€ ao produtor é vendido a 3,99€, a curgete (que ainda necessitava de uns dias para ser colhida em Portugal) era paga ao produtor espanhol a 1,50€, mas uma semana depois é paga aos produtores nacionais a 0.50€.

Se é verdade que “em altura de crises enquanto uns choram outros vendem lenços de papel”, também é verdade que “em terras de cego quem tem olho é Rei”.

É por isso fundamental optar por produtos locais e regionais. Dados recentes indicam que pequeno comércio aumentou as suas vendas. Ao fazer compras locais além de colaborar para que o pequeno comércio (que paga os seus impostos em Portugal) continue a subsistir, contribui para a redução da pegada carbónica. Quanto mais próximo de nós for produzido o alimento que consumimos, menor o impacto ambiental.

Sabemos que não há almoços grátis! Se por um lado o consumidor preocupa-se com o ambiente, por outro lado não prescinde do kiwi neozelandês, da picanha da argentina ou da soja da Amazónia. Temos que adquirir a consciência de que ao comer abacaxi, manga, papaia todo o ano estamos a contribuir para o aumento da pegada carbónica.

Eu, como todos os portugueses gostaríamos de fechar os olhos e ao abrir perceber que tudo tivesse passado?

Pois bem, nem o mágico Houdini nos seus melhores truques conseguiria fazer esse número de magia. Talvez seja este o momento de cada um de nós refletir nos seus atos, porque o mundo como o conhecemos, jamais será o mesmo e compete a cada um de nós consciencializarmo-nos que é necessário mudar e tem de ser já!

O planeta, o mundo e o nosso país precisam de si! Está disponível para este desafio?

Marisa Costa

Vice – Presidente da APROLEP

Fonte: Agroportal