O planeta está a ter umas semanas de alívio no que toca aos efeitos da atividade humana na atmosfera, mas os especialistas pedem cautela

Quando, em Lisboa, foi possível sentir o cheiro de terra molhada depois de uma noite de chuva e ouvir o chilrear dos pássaros durante o dia, muitos se espantaram. Aconteceu o mesmo quando foram avistadas corças a passear em Odivelas, quando São Paulo deixou de estar coberta por uma nuvem de poluição ou quando em Madrid os passos ecoam em algumas ruas.

Uns tempos depois, veio a consciência de que a qualidade do ar tinha realmente melhorado, de que a natureza estava, de certa forma, a recuperar o que era seu por direito, e soaram os primeiros aplausos: este período já seria uma ajuda para o combate às alterações climáticas.

No entanto, sem surpresas, nem tudo é tão linear quanto parece, e os especialistas pedem cautela. “Nós temos, de facto, menos emissões (porque menos produção das fábricas, menos transportes…) mas se olharmos para os registos da concentração de dióxido de carbono na atmosfera, eles estão mais elevados do que no ano passado”, recorda à EXAME Pedro Matos Soares, físico especialista em alterações climáticas. “Porque os gases de efeito de estufa têm um tempo de residência na atmosfera. Claro que este tempo reduziu as emissões, mas infelizmente as concentrações de gases de estufa estão superiores”, o que nos deve recordar de que todas as ações das últimas décadas não ficarão resolvidas este tempo de confinamento limitado que estamos a viver.

Antes de continuar, porém, o especialista pediu que ficasse claro que “esta pandemia é uma coisa horrível, e que a coisa que mais me preocupa são as pessoas que estão a sofrer direta e indiretamente com esta pandemia”.

No entanto, continua, é possível e até desejável retirar algumas aprendizagens do período que estamos a viver para que a luta contra as alterações climáticas continue quando tudo voltar àquilo que será o novo normal. No fundo, é uma forma de fazer valer a oportunidade. “Do ponto de vista das alterações climáticas, o que a pandemia nos veio mostrar, de um momento para o outro, é que um problema global pode ser muito limitador da nossa vida”, continua o especialista.

“Imagine um mundo em que as alterações climáticas estejam mais avançadas, ou seja, que os fenómenos aconteçam cada mais com mais violência e em todos os sítios do globo. O nosso sistema é débil a afrontar este cenário. Devíamos ter soluções globais para problemas globais. E o que sabemos até agora é que a prevenção é o melhor remédio para este problema”, avisa.

No ano passado, o mundo foi marcado por dezenas de catástrofes naturais que vitimaram milhares de pessoas: os ciclones Idai e Kenneth, em Moçambique; o furacão Barry, no Louisiana; o furacão Dorian, nas Bahamas; o incêndio florestal Getty, na Califórnia; cheias que fecharam Madrid e Veneza e devastaram vastas regiões do Sudão do Sul; secas severas na Tailândia ou na África do Sul…e muitos outros que se foram sucedendo com um ritmo cada vez mais acelerado e uma intensidade crescente.

Em termos económicos, fenómenos como os ciclones tropicais provocaram as maiores perdas económicas do período 2015-2019.  Contas da Comissão Mundial sobre a Economia e o Clima (CMEC) da ONU revelavam que custos para a economia na ordem dos 320 mil milhões de dólares (ou 267 mil milhões de euros, ao câmbio da altura) só no ano de 2017.

E para a instituição não restam dúvidas: se forem tomadas as medidas certas em prol da sustentabilidade ambiental, os ganhos podem superar os 26 biliões de dólares até 2030, o ano em que se espera conseguir travar o aquecimento global em “apenas” dois graus Celsius.

Prevenir para cuidar

Pedro Matos Soares sublinha ainda à EXAME a importância de garantir e cuidar da qualidade do ar, cuja melhoria agora é ‘visível’ e que a maior parte das pessoas consegue avaliar, em termos de saúde pública. Para o investigador, esta é uma das consequências de que os governos não se devem esquecer quando for hora de relançar a economia e o mundo pós-Covid. “Porque agora estamos a falar de uma pandemia que matou cerca de 700 pessoas em Portugal [números de dia 20 de abril], e cujas mortes eu lamento imenso. Mas a verdade é que no País morrem cerca de 6 mil pessoas devido a problemas relacionados com a poluição”, acrescenta.

Recorde-se que os dados mais recentes compilados pelo INE davam conta de que em 2018 mais de 13 mil pessoas tinham falecido, em Portugal, devido a doenças do aparelho respiratório, representando 11,7% da mortalidade total ocorrida no País naquele ano.

Razões mais do que suficientes para nos levarem a pensar “que decisões políticas devíamos tomar para o nosso desenvolvimento”.

Ainda esta quarta-feira, 22 de abril, o secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial realçou que “poderemos assistir a uma queda de 6% das emissões carbónicas este ano por causa da redução das emissões provocadas pelos transportes e pela produção de energia”.  Um valor ainda assim insuficiente se conseguir alcançar a meta definida no Acordo de Paris, de limitar o aquecimento até ao fim do século. Para tal, será preciso uma redução das emissões anuais de 7% ao longo dos próximos séculos. Além de que “para o ano as emissões poderão disparar novamente, à medida que a produção industrial procura compensar as perdas deste ano”, avisa Petteri Taalas, citado pela Lusa.

Por isso mesmo, sugere Matos Soares, talvez fosse interessante aproveitar esta experiência para ter em consideração que a questão do teletrabalho é possível, passado o período do Grande Confinamento. Tal como reduzir ao máximo as viagens para conferências ou reuniões, sempre que puderem ser substituídas por videoconferências, por exemplo. No mesmo sentido, o especialista realça a importância de pensar seriamente no investimento numa rede de transportes públicos elétricos.

“A qualidade ambiental das cidades seria muito melhor. Haveria menos ruídos, por exemplo. Do ponto de vista desta quarentena fatídica, podemos dizer que isto nos permite perceber que as cidades se tornam muito mais agradáveis se tivéssemos consciência de que a qualidade do ar é muito importante”, reforça.

O investigador do Instituto Dom Luiz, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa salienta ainda que esta era uma ocasião para a sociedade, como um todo, refletir sobre a importância da chamada escala do comportamento, da qual as pessoas agora percebem – ou seja, o facto de que o comportamento de cada pessoa tem efetivamente impacto no coletivo.

No mesmo sentido, Matos Soares pede que se olhe para outro ponto positivo que esta experiência social pode trazer: “o facto de neste período a sociedade estar a ouvir mais as pessoas que trabalham das diversas áreas. As pessoas com a pandemia, e antes já acontecia um pouco com as alterações climáticas, começam a querer ouvir as pessoas que sabem mais dos assuntos”, salienta. Uma questão que é positiva não apenas em termos de informação, mas também porque poderá ter impactos no investimento público alocado à Ciência, que em Portugal tem vivido com sucessivos cortes na alocação de recursos nos últimos Orçamentos do Estado.

Nem tudo são rosas

Naturalmente, e apesar de ser importante olhar para os pontos positivos, a verdade é que é impossível ignorar todos os perigos que também estão à espreita nesta época e possivelmente depois de o pior passar. “Esta crise económica vai criar desafios fortíssimos à nossa sociedade que se prende com pessoas, famílias, micro-empresas, pobreza e mais injustiça social. E isso, do ponto de vista da tomada de decisões, promove a tomada de decisões imediatistas, respostas antigas para problemas novos, sem visão estratégica”.

“Por outro lado”, lembra Matos Soares, “enquanto tivermos uma sociedade muito aflita com a sobrevivência, as questões ambientais são relegadas para segundo plano”, o que é natural, mas que não vai dar tréguas ao planeta, nota. O investigador salienta ainda a possibilidade de recrudescimento das clivagens políticas e dos populismos, com a Europa a revelar-se mais dividida do que o que seria desejável na procura por uma resposta concertada, e com a possibilidade real dos avanços de discursos mais demagógicos, “nacionalistas e adversos ao que é um discurso globalmente mais responsável”, alerta.

Fonte: Visão