“Diário da trincheira: vida no covidário” é uma série de episódios relatada na primeira pessoa por Joana Martins, médica na Unidade de Cuidados Intensivos de Pediatria do Hospital D. Estefânia. Num discurso pessoal, por vezes humorístico, a pediatra conta-nos como é o dia a dia de uma profissional de saúde em plena pandemia do vírus SARS-CoV-2. Este é o terceiro episódio.

Releia o episódio anterior: EPISÓDIO 2: Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão

Episódio 3 – Calor, nevoeiro, chichi, comichão…. Enfim, parece tortura chinesa

Numa altura em que um pouco por todo o lado, brotam fotografias de profissionais de saúde vestidos a rigor com o equipamento de proteção mais ou menos completo, gostaria aqui de fazer um relato em primeira mão das dificuldades que a proteção proporciona.

Não podemos esquecer que o equipamento de nível 2, o que usamos nas unidades de cuidados intensivos, inclui fato (camisola e calças de algodão), fato de macaco com capuz plastificado, bata, touca, viseira, máscara, dois pares de luvas, sapatos de circulação e perneiras. Se vos disser que para vestir o fato, temos que ajustar as calças às pernas e que parecemos todos que vamos andar de bicicleta, não estou a mentir. Enquanto nos vestimos temos uma ordem precisa de colocação de material e fazêmo-lo em frente ao espelho. Não é por uma questão de vaidade, mas sobretudo para garantir que não fica cabelo fora da touca. Ou que os elásticos estão bem colocados.

1. Calor

Pois bem, se em algum momento da minha vida considerei a hipótese de recorrer a um daqueles fatos de plástico para treinar e aumentar a sudação, neste momento, já descartei a ideia a toda a velocidade. Não dá! Acabamos de vestir as camadas todas e já escorre suor pela cara, pelo pescoço, pelas costas e por onde calha…. É um bocado desmoralizante, porque já estamos cansados do fato e ainda agora o acabámos de colocar. O calor é intenso. É-o sobretudo na primeira hora em que estamos vestidos. Talvez porque ensopamos a roupa de tanto transpirar, a certa altura torna-se mais tolerável. Ou isso ou baixamos o nosso padrão de exigência. Ainda não sei bem.

2. Nevoeiro permanente

Entre máscara, óculos e viseira vai um circuito esquisito. É suposto a máscara aderir tão bem à cara que não saia ar expirado para os óculos e para a viseira. É suposto. Mas máscaras apertadas em torno da face e nariz são muito difíceis de tolerar, ficamos marcados e precisamos de pôr placas protetoras de pressão no nariz. O problema é que se não ficar tudo bastante ajustado, vamos entrar no nevoeiro permanente. Inspiramos e parece que tudo melhora, expiramos e deixamos de ver o doente. E damos por nós a reter a respiração enquanto fazemos algum procedimento. Espetacular! E o formato do nevoeiro? Que se acumula mesmo junto ao nariz, precisamente o sítio no nosso campo visual onde decorre toda a ação?

3. Chichi

Depois de 4 horas de equipamento, começa a vontade de fazer chichi. Não sei, é capaz de ser psicológico. Mas é tramado! Chega uma suspeita de doente COVID-19 e, antes de qualquer um de nós se equipar, começa a fila para a casa de banho. Tentamos precaver-nos, porque no fundo não somos chineses. Na generalidade somos menos práticos e vá-se lá perceber porquê, recusamo-nos a usar fralda por baixo do equipamento de proteção. Cambada de preguiçosos, pá!

4. Comichões em sítios vários

Ora aí está, ou porque o suor escorre na testa, ou porque o elástico da máscara está a escorregar, arrepanha o cabelo e causa dor por cima das orelhas, ou porque a máscara, no eterno vaivém da respiração, começa a fazer comichão em torno da boca, ou porque as calças que temos são largas e vão descaindo… A verdade é que é um desatino. Temos que ser muito disciplinados e poupadores de movimentos. Os movimentos geram fricção de equipamento e isso gera o quê? Pois claro, comichão! E por isso, damos por nós sentadinhos na beira de uma cadeira a sentir uma gota de suor a escorrer cara abaixo sem conseguir coçar. É difícil. Parece tortura chinesa (e é.…).

5. Viseira que salta

Isto foi um problema da primeira vez que usei o equipamento: cada vez que olhava para baixo, a viseira toca no peito e salta da cabeça para fora. Não, não se pode fletir lá muito bem o pescoço, nem encolher os ombros, nem rodar a cabeça de um lado ao outro. No fundo, apenas micromovimentos do pescoço, está bem?

6. Os sacanas dos elásticos

E a dor dos elásticos nas orelhas? É que no início, nós começamos por colocar o elástico bem no alto da cabeça, mas ele não fica lá, meus senhores… Não, vai descaindo…. Lentamente, arrepanhando cabelos e depois, fica nas orelhas. Ali, a moer e a empurrar as orelhas para baixo, a fazer uma comichão danada. E não, não podemos ajeitar, porque as nossas mãos estão sujas.

7. Sede

E a sede? Depois de horas a re-inalar o ar que respiramos, a sede aperta. E não podemos beber. Porque para beber é preciso manipular a máscara e isso não pode ser. Sim, temos sede. E sinceramente este foi o aspeto que mais me surpreendeu: o calor e a viseira embaciada já sabia que ia acontecer, mas o facto de não podermos pôr e tirar a máscara para aliviar a sede, sem obedecermos ao processo de descontaminação, é duro.

8. Comunicar

Se há coisa que complica tudo é a dificuldade em comunicar. Não só ouvimos pior, porque temos os ouvidos tapados pelo capuz do macacão de plástico, falamos em voz abafada, por detrás de uma máscara espessa e de uma viseira plástica, e não conseguimos ler os lábios uns dos outros para nos orientarmos. E reconhecemos os sorrisos pelo estreitamento dos olhos. E começamos a não entender coisas simples, como a ironia ou o sarcasmo. Esta pobreza na qualidade da comunicação é totalmente inesperada. Já é mau trabalhar assim, se não entendemos as piadas uns dos outros, então é mesmo triste. Parecemos estrangeiros: o riso é desfasado, as piadas têm que ser repetidas porque não se compreendem à primeira. Quando estamos dentro dos quartos de isolamento, falamos com os nossos colegas através de mensagens escritas no vidro. Fazemos gestos e falamos mais alto, mas a comunicação não é fácil. O intercomunicador tem falhas e não é de alta-fidelidade.

9. Tirar o equipamento

Tirar o equipamento de proteção individual é suposto durar 15 minutos. Sim, 15 minutos inteirinhos para despir as camadas. O risco de contágio é sobretudo nesta etapa. Não retiramos o equipamento sozinhos: temos alguém que nos coordena nesta função. Alguém que nos dá as indicações, passo a passo, para não cometermos erros ou esquecimentos. Se vos disser que para retirar os diversos itens existe uma ordem específica – que os movimentos têm que ser vagarosos para não gerar aerossóis e nunca tiramos um item novo sem mudar de luvas e higienizar o primeiro par de luvas com solução alcoólica – não acreditam na quantidade de material, que em rigor, esta tarefa exige. E tirar um macacão sem tocar na parte de fora? Sinto-me uma noiva de vestido branco e cheia de base, com medo de sujar tudo! E no final de todo o processo, vem a gloriosa caminhada pelo lençol ensopado de lixívia. Nunca o cheiro da lixívia me pareceu tão bom. Significa liberdade. Significa que posso ir à casa-de-banho, beber água e sim, coçar a cara e as orelhas!

Mas nada disto é realmente um problema. Porque as dificuldades do uso do equipamento não são nada quando comparadas com o isolamento que infligimos aos doentes. É doloroso não podermos olhar nos olhos. É difícil não poder estar próximo. Até porque vestidos como astronautas, aterrorizamos ainda mais os nossos miúdos. É complicado comunicar abdicando dos gestos ou da expressão facial. E este equipamento limita-nos na nossa comunicação. Percebemos a sua absoluta necessidade, mas sabemos que gera desconforto nos profissionais e solidão nos doentes.

Um artigo da médica Joana Martins, pediatra na Unidade de Cuidados Intensivos de Pediatria no Hospital D. Estefânia, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central.

Próximo episódio: Não são permitidas visitas.

Fonte: SAPO24