Este é um relato pessoal, por vezes humorístico, do que é a vida de um profissional de saúde em plena epidemia do vírus SARS-CoV-2. Um artigo da pediatra Joana Martins, médica na Unidade de Cuidados Intensivos de Pediatria no Hospital D. Estefânia, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central.

Episódio 1: Os preparativos

Há meses que ouvíamos falar da pandemia que se desenrolava no interior da China. Mas estávamos no último trimestre de 2019 e como tal, a questão das férias e escalas de Natal e Passagem de Ano eram muito mais relevantes e prementes.

Nada contra a China, mas a verdade é que de há uns anos para cá, temos tido imensos surtos de doenças provenientes de lá… O SARS-CoV 1 em 2003, a gripe das aves ou H5N1, a gripe suína ou H1N1…. Parece que tudo acontece no Oriente. Mais surto, menos surto, acabamos por encolher os ombros perante a cobertura mediática que se faz destes acontecimentos.

Por isso mesmo, um surto de um coronavírus, com origem num mercado alimentar – cheio de bichos vivos comercializados sem qualquer controlo sanitário – parecia mais do mesmo.

A verdade é que a realidade chinesa também não permitiu a divulgação real do problema: soubemos tarde e a más horas o que realmente se passava. E soubemos pelos nossos vizinhos italianos.

No contexto do Serviço Nacional de Saúde (SNS), em que os recursos são escassos, as equipas envelhecidas e sangradas pela permanente saída dos profissionais para o setor privado, a verdade é que olhávamos para tudo isto da mesma forma como se olha para a eleição do Trump nos EUA: é impossível!

E na realidade, nas últimas oito semanas, temos vivido na negação e no medo. Só que o medo cresceu. E nós sabemos que o medo é uma arma de sobrevivência incrível, porque propele-nos para o combate. Com o que temos à mão.

Assim, quando antes tínhamos dificuldade em criar uma escala médica com um elemento, estamos a criar escalas com três elementos. Assim, tentando explicar as coisas de forma simples: dois médicos veem doentes COVID-19, um médico assume os outros doentes. 24 horas por dia, sete dias da semana. O que é que isto significa? Significa que temos pela frente semanas de 60 horas de trabalho. No mínimo. Porque se assume que estaremos todos saudáveis. E se um de nós adoecer? Bem, sinceramente, não sabemos como vamos fazer. Não há plano B.

Antes disto, fazíamos bancos de 24 horas. Agora fazemos 12 horas de cada vez. Os italianos estudaram que a probabilidade de nos infetarmos a partir da 15ª hora a usar o equipamento de proteção individual era total. Decidimos adaptar-nos!

Mais, como trabalhadores em Cuidados Intensivos, o nosso equipamento de proteção individual contempla o uso de cógula – uma espécie de barrete impermeável, viseira e perneiras de plástico. Não temos cógulas, mas contamos com a disponibilidade de 50 costureiras que, gratuitamente, costuram cógulas para nós. Temos poucas viseiras, mas a equipa de enfermagem lançou mãos à obra e pôs-se a cortar viseiras em acetato. Não temos perneiras, mas temos sacos plástico com elásticos e temos galochas. Sim, a nossa equipa – e passo a publicidade, encomendou galochas na Decathlon. Roxas. Que se é para trabalhar, ao menos é com estilo!

Mas as adaptações não ficam por aqui: circulamos com os doentes pelo corredor inicialmente usado pelas visitas. Abrimos portas de emergência. Deitamos lixívia em lençóis velhos e que dispomos no chão para desinfetar as rodas das camas e das macas quando passam. Desenhamos riscas no chão. Definem-se circuitos, caminhos, áreas sujas e áreas limpas. Criam-se antecâmaras para vestir e despir. E casas de banho com chuveiros para a descontaminação. Discutimos os filtros que vamos pôr nos ventiladores, criamos estratégias para oxigenar os doentes sem recorrer a meios que – por criarem aerossóis – não podemos utilizar. Vemos vídeos no Youtube sobre como oxigenar doentes com máscaras e sacos plásticos ou ventilar dois doentes com o mesmo ventilador.

Não sabemos como fazer: tudo é novo e os recursos escasseiam. Sabemos que os nossos doentes precisam de acompanhantes, mas não temos condições físicas, nem de protecção a proporcionar-lhes. Inventamos estratégias: ecrãs ligados a telemóveis dos profissionais para que os pais possam ver as crianças.

Mas sabem o que é mesmo cansativo no meio disto tudo? A incerteza. Não sabemos o que vai ser exigido de nós. Estamos na praia a ver recuar o mar, sem saber calcular de forma precisa o tamanho do maremoto que se vai abater sobre nós. Será que a montanha vai parir um rato? Será que vai ser como a gripe pneumónica de 1918 em que morreram 6.000 pessoas em Lisboa e que, num só dia, foram a enterrar no cemitério dos Prazeres, 250?

Nós, como pediatras, acreditamos nas notícias da China, em que as crianças aparentemente saíram incólumes da epidemia? Ou vamos conhecer uma realidade diferente (como em tudo o resto, aliás)? Será que vamos ser chamados a ajudar nos adultos? Temos ventiladores e temos mãos, haja quem tome decisões. As coisas vão apertar – é inevitável – e quando esse momento chegar, não vamos recuar. Todos temos um contributo.

Próximo episódio: Casa onde não há pão, toda a gente ralha e ninguém tem razão.

Um artigo da médica pediatra Joana Martins.

Fonte: SAPO 24