É urgente reunir mais e melhor informação antes de a divulgar. Acredito que isto poderia contribuir para uma sociedade mais equilibrada, mais forte e mais capacitada para o que aí virá.

Não, não vai ficar tudo bem. Esta é a primeira coisa de que temos de nos convencer para no fim ser menos doloroso apanhar os cacos. Mas também não podemos viver na angústia da contagem diária de mortos e de infectados. Alguém tem de parar isto, pela nossa saúde, se não física, mental.

Há um mundo de distância entre viver em permanente estado de ansiedade e ser completamente inconsciente ou até leviano. Como disse ontem Ramalho Eanes, numa entrevista a Fátima Campos Ferreira, na RTP1, que comoveu o país, “o medo é razoável, mas é nossa obrigação ultrapassá-lo”. O ex-presidente da República e actual conselheiro de Estado lembrou que “isto já aconteceu, que se ultrapassou, que vai ser ultrapassado”.

Para mim é claro que os dados têm de ser públicos e a informação mais transparente, rigorosa e objectiva do que nunca. Mas são contraproducentes, até por isso, as conferências diárias com a directora-geral de saúde, Graça Freitas, e a ministra da Saúde, Marta Temido. Todos os dias somos bombardeados com números, muitas vezes incorrectos, e obrigados a assistir aos sinais exteriores de tristeza, de decrepitude e cansaço que dispensaríamos bem. Há coisas que ficam melhor nos bastidores, por nós e por aquelas duas mulheres em cima de quem o mundo também desabou.

Talvez para me auto-preservar, fui procurar um historial. No ano passado, segundo o Instituto Nacional de Estatística, morreram 102 255 pessoas entre Janeiro e Novembro, menos 1,3% do que no período homólogo. Em 2018 registaram-se 113 573 óbitos, de acordo com a mesma fonte: 12 318 em Janeiro, 11 100 em Fevereiro, 10 501 em Março, 9 622 em Abril.

Agora as causas de morte: do total, 28 530 pessoas morreram de tumores (mais de 2 mil/mês), 32 926 de doenças do aparelho circulatório (quase 3 mil/mês), 13 507 de doenças do aparelho respiratório (mais de mil/mês). Ainda, 7 077 pessoas morreram de causas mal definidas e 3 206 de causas desconhecidas ou não especificadas.

Não quero, de maneira alguma, menosprezar uma morte que seja, nem tampouco banalizá-la – que é outro risco. Mas quero colocar as coisas em perspectiva. Todos os dias sabemos quantas pessoas morrem infectadas com o novo coronavírus. Sabemos, também, que uma grande maioria está imunodeprimida e sofre de comorbidade (mais de uma doença). É tudo. E que utilização faz o comum mortal fechado em casa destes números diários? Viaja entre a euforia e a depressão, entre o “Andrà tutto bene” [vai ficar tudo bem] e o “não vai sobrar pedra sobre pedra”, o apocalipse. É normal, não somos todos extraterrestres e esta é uma realidade da qual não nos podemos alienar.

Voltando a Ramalho Eanes: “A doença não faz com que a vida pare”. Há vida além do Covid-19, literalmente – que o digam países como o Brasil, onde há 12 milhões de desempregados e surtos constantes de dengue, sarampo ou VIH, além da fome.

É urgente reunir mais e melhor informação antes de a divulgar. Acredito que isto poderia contribuir para uma sociedade mais equilibrada, mais forte e mais capacitada para o que aí virá. Não, não vai ficar tudo bem. Vai ficar o melhor possível. E isso também depende de cada um de nós e de um tempo que pode e deve ser de reflexão.

Artigo de Opinião de Isabel Tavares

Fonte: SAPO 24