Está no olho do furacão criado pela covid-19 e chega a casa dos portugueses diariamente para dar conta dos últimos números e fazer as recomendações necessárias face à evolução do surto do novo coronavírus no país. Faz questão de falar de forma directa, evitando carregar o discurso de termos técnicos, e procura responder com clareza às perguntas que lhe são dirigidas por jornalistas em qualquer ocasião. Sabe que uma comunicação eficaz é essencial num cenário de pandemia como o que atravessamos e que a exposição mediática faz parte do caderno de encargos das funções que desempenha. Graça Freitas, 62 anos, está à frente da Direcção-Geral da Saúde (DGS) desde 2017, mas nunca como agora viu a sua acção tão escrutinada.

Diz quem a conhece que é de uma firmeza serena, pragmática, franca, leal e incansável. Tecnicamente competente, faz as perguntas certas, sabe o que quer de cada uma das equipas com que trabalha, na DGS e fora dela, e dá-lhes a autonomia de que precisam. Porque confia. A transparência, não se cansa de sublinhar, é sempre a melhor estratégia, sobretudo quando a desinformação, exponencialmente multiplicada pelas redes sociais, faz uma concorrência perigosa aos órgãos de comunicação e às fontes institucionais, nacionais e internacionais, como a Organização Mundial de Saúde (OMS). Estas qualidades, no entanto, não a têm isentado de críticas.

Graça Freitas tem feito passar a mensagem necessária de forma “simples, coerente e transversal”, demonstrando que é “tecnicamente madura, preparada”, diz Delfina Antunes, delegada da Unidade de Saúde Pública do Agrupamento de Centros de Saúde (ACeS) do Porto Ocidental, uma médica que a conhece há quase duas décadas e com ela trabalhou em vários projectos envolvendo a OMS e a União Europeia. “Em situações de crise, como a desta pandemia, haver um comunicador único é fundamental. A pressão é enorme, mas a dra. Graça Freitas continua firme e muito à vontade a falar. Deu aulas de Epidemiologia mais de 20 anos e sabe chegar às pessoas de uma forma simples”, acrescenta.

O mesmo diz Jorge Torgal, outro especialista em saúde pública, professor jubilado da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, admitindo que tem pela directora-geral da Saúde “grande consideração pessoal”: “Ela tem feito uma muito boa prestação, correcta, porque — e outra coisa não seria de esperar — é bem fundamentada. Fala de uma forma que oferece confiança, que é tranquilizadora.”

Garante este médico que é muito difícil nestes contextos, tendo em conta toda a informação que há para trás sobre a progressão da pandemia, “dar respostas simples que não sejam simplistas”, ao mesmo tempo concretas e precisas, num comunicado breve que todos devem compreender. E isto tudo quando quem fala está sujeito a um “protagonismo forçado” que vai contra a sua natureza.

Graça Freitas e a ministra da Saúde, Marta Temido, numa das conferências de imprensa dos últimos dias Rui Gaudêncio

“Até fico surpreendido com a sua capacidade de resistência, física mesmo, ao ter esta intervenção pública diária. Mais uma razão para salientar o facto de ela não cometer um erro de três em três dias, ainda por cima não sendo uma profissional da comunicação”.

A médica que quis ser agricultora

Ser uma “profissional da comunicação” nunca esteve entre as carreiras que Graça Freitas ponderou. Nascida no Huambo, em Agosto de 1957, filha de um funcionário da administração portuguesa e de uma dona-de-casa, levou em Angola uma “vida pacata” em que começou por sonhar ser agricultora e depois arquitecta, disse numa entrevista ao PÚBLICO em Agosto de 2018, quando estava havia nove meses à frente da DGS.

Assumira funções, interinamente, no final de 2017, em substituição de Francisco George, que deixara o cargo por ter atingido o limite de idade (70 anos), mas não gosta que se diga que lhe sucedeu, já que a direcção-geral não é uma monarquia, mas que foi escolhida por concurso.

Graça Freitas entrou para a DGS em 1996, a convite de Jorge Torgal, e passou a liderar a divisão de combate às doenças transmissíveis, herdando o Plano Nacional de Vacinação (PNV), aquela que define como a obra da sua vida.

A cada entrevista, não perde a oportunidade de falar deste programa de sucesso criado em 1965 pela única mulher que antes dela liderou esta instituição com mais de 100 anos, Maria Luísa van Zeller, e de como graças a ele Portugal tem hoje elevadíssimas taxas de cobertura, imunidade de grupo e controlo de doenças potencialmente fatais.

Quando em 1980 acabou o curso na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) — para onde transitara sem sobressaltos cinco anos antes para dar continuidade aos estudos que começara na Universidade de Luanda e em pleno processo de descolonização —, estava convencida de que as doenças infecciosas seriam uma coisa do passado. Mas quando chegou ao Centro de Saúde da Ajuda apercebeu-se de que o sarampo ainda matava em Portugal.

Antes, trabalhara no Hospital de Santa Maria, ligado à FMUL, onde viria a dar aulas como assistente convidada entre 1995 e 2017, e passara oito meses no Centro de Saúde de Ponte-de-Sôr, em contacto com uma população rural cuja realidade desconhecia por completo. Foi lá que, em conversa como uma jovem mãe, aprendeu — disse-o na mesma entrevista ao PÚBLICO – o que era um achigã (um peixe).

“Ela tem um genuíno interesse pela saúde pública”, diz Delfina Antunes, a médica que nasceu precisamente no mesmo dia que a directora-geral da Saúde, e que com ela partilha esta especialidade clínica que Graça Freitas concluiu em 1988. “É uma pessoa acessível, cordata, que tanto se dá bem numa sala cheia de médicos e de outros especialistas em saúde como à conversa com alguém que não é da área.”

Tão cordata que chega a ser, afirmou-o ao Jornal de Notícias Jorge Torgal, seu chefe durante quatro anos, “demasiado condescendente com quem a maltrata”.

Graça Freitas discorda. Diz que não é “santa”, mas reconhece que prefere evitar confrontos. Opta sempre por chegar aos que a rodeiam, sejam os especialistas com quem se cruza diariamente, sejam os portugueses, com informação técnico-científica, com números, com resultados. É assim com o surto de covid-19 que agora enfrentamos, tem sido assim nos últimos 24 anos com o PNV. No contexto nacional, já o fez saber várias vezes, não vê qualquer vantagem em tornar a vacinação obrigatória por lei.

Francisco George, o seu antecessor na DGS, optou por não falar ao PÚBLICO sobre Graças Freitas — “por princípio éticos, que sempre observo, não me parece oportuno fazer qualquer apreciação qualitativa neste momento”, disse —, mas quem com ela trabalha descreve-a como uma mulher realista, incansável e frontal.

A forma como se dirige ao país diariamente ou como explica por que razão largou o tabaco parecem confirmar este diagnóstico. “Fumei mais de 20 anos e o que me deixou verdadeiramente convencida de que tinha de parar foi a rampa da Alameda Afonso Henriques. Eu usava o metro, que fica lá em baixo na Almirante Reis. De ano para ano, a dificuldade [de subir até ao edifício da DGS] era cada vez maior.”

É do mesmo pragmatismo que faz uso no trato diário. Estudiosa, trabalhadora, humilde, tem qualidades de liderança que são para a delegada de saúde pública do Porto Ocidental evidentes: “Mantém o espírito aberto, sabe ouvir e gerir bem o seu tempo, transmite segurança às equipas nos vários níveis hierárquicos e, porque confia no que são capazes de fazer, deixa-as trabalhar com autonomia.”

Um gabinete de guerra

Alexandre Abrantes, professor de Políticas e Administração de Saúde e especialista em Saúde Pública, não duvida da competência da directora-geral, mas é mais crítico quanto à forma como se tem lidado com esta pandemia em Portugal, atendendo a que foi um dos últimos países europeus a registar infectados. Para este médico que é vice-presidente da Cruz Vermelha Portuguesa é preciso uma resposta que, institucionalmente, não se cinja ao universo da Saúde.

“A Dra. Graça Freitas é uma pessoa extremamente competente na área da saúde pública, e está completamente a par das recomendações internacionais da OMS”, tudo fazendo para aplicar da melhor maneira possível à realidade portuguesa as directrizes vindas de Genebra e Copenhaga, atesta este professor, que teve a actual directora-geral como aluna num curso de mestrado — “e foi uma das melhores alunas, se não mesmo a melhor”.

“Ela deve estar absolutamente exausta. No seu lugar, eu não aguentaria. Tenho o maior respeito por isso, mas a acção da DGS não pode ser personalizada. O problema não é a DGS. Isto não é um problema de saúde, é um problema de segurança nacional; é uma situação de guerra e tem de ser encarada como tal. E isso não se faz com uma directora-geral da Saúde e com uma ministra”, reclama Alexandre Abrantes.

O professor e médico especialista não quer “fazer acusações a este ou àquele”, mas diz que é tempo de exigir uma resposta coordenada em várias frentes. Para Alexandre Abrantes, deveria ter sido já criado “um gabinete de guerra contra o vírus”. Neste grupo extraordinário, acrescenta, estariam naturalmente Graça Freitas e Marta Temido, a ministra da Saúde, mas também especialistas de outras áreas. “Isto é um problema que as ultrapassa. É preciso antecipar. As nossas medidas foram sempre atrás dos acontecimentos. Mas não é respondendo à situação que se ganha uma guerra; ganha-se antecipando-nos ao inimigo, prevendo o que vai acontecer e tomando as medidas antes de o inimigo chegar.”

DGS tem estado à altura

Delfina Antunes e Jorge Torgal discordam. Ambos defendem que Portugal tem dado uma resposta adequada à crise e que a DGS tem estado à altura.

“Este é um desafio extraordinariamente difícil, mas as medidas têm sido tomadas atempadamente. E a DGS tem respondido bem, melhor até do que outros modelos organizativos de países muito mais ricos do que o nosso”, diz a primeira. “Há um caminhar com passos seguros e que tem sido compreendido. Mesmo se a estrutura do Ministério da Saúde é, hoje em dia, muito mais frágil do que era há dez anos atrás”, acrescenta Torgal.

Delfina Antunes não deixa de lembrar, no entanto, que a DGS tem um quadro de pessoal “retraído e envelhecido”, assim como muitos outros serviços do sector. “Na saúde pública, hoje temos os médicos já mais velhos e os muito novos, que são muito qualificados, mas têm ainda pouca experiência. Há uma geração, um hiato de 20 anos, em que o Serviço Nacional de Saúde praticamente não tem médicos desta especialidade. Olho à minha volta e constato que, no total, deveremos ser cerca de 400 especialistas em saúde pública. É muito pouco.”

As vozes mais críticas contra a forma como o país está a lidar com esta crise têm sido dirigidas à SNS24, a linha de apoio gerida por privados que já foi reforçada mas que continua incapaz de dar resposta a muitas das chamadas que recebe, e às condições em que estão a trabalhar muitos profissionais de saúde, com turnos longuíssimos e equipamentos em falta.

“É muito interessante ver que aqueles que tanto criticaram, e tantos foram, a despesa em serviços públicos são hoje os primeiros a criticar a falta de recursos e a insuficiente resposta desses serviços”, nota Torgal, director do Instituto de Higiene e Medicina Tropical entre 2000 e 2010.

O “grande susto”

Graça Freitas, que até aqui fez a sua vida profissional no sector público, foi intensamente criticada por, em meados de Janeiro, ter desvalorizado as possibilidades de contágio deste coronavírus de uma pessoa para a outra, afirmando mais tarde, no final de Fevereiro, ao Expresso, que Portugal poderia vir a ter, no pior dos casos, um milhão de infectados. Mas no mesmo dia 28 de Fevereiro esclareceria logo a seguir, ao PÚBLICO, que a DGS estava a trabalhar com um cenário de 21 mil doentes com covid-19 na semana mais crítica.

“Essa história do ‘um milhão’ foi um título infeliz de um órgão de comunicação social. Era uma estimativa. E, como vemos ainda hoje, as estimativas podem ter uma amplitude enorme. Essa era uma estimativa de amplitude máxima”, explica Jorge Torgal.

Delfina Antunes lembra que não é a primeira vez que Graça Freitas lida com a ameaça de um vírus agressivo — “basta pensar no grande susto que foi o SARS [Síndrome Respiratória Aguda Grave, na sigla inglesa] em 2002”, a chamada pneumonia atípica, também causada por um coronavírus e com uma taxa de mortalidade de 10%  —, e que é preciso uma base de trabalho, mesmo que depois o cenário avançado não se concretize.

Desde que entrou para a DGS, em 1996, Graça Freitas já teve de lidar com várias crises provocadas por varicela, legionella ou gripe A (H1N1), mas a mais grave, já o disse, foi precisamente a que envolveu a SARS. Até aqui.

“Não temos dúvidas de que vão surgir novas epidemias no futuro, faz parte da natureza dos vírus sofrerem mutações. Mas hoje é completamente diferente enfrentar uma pandemia, em comparação com o que tínhamos há cem anos. Também é evidente, porém, que somos cada vez mais milhões no planeta e que hoje um vírus dá a volta ao mundo em horas, por isso é que a resposta tem que ser muito rápida”, dizia ao PÚBLICO a directora-geral da Saúde em Agosto de 2018. “A velocidade a que tudo acontece é brutal.” O surto de covid-19 veio infelizmente demonstrar que Graça Freitas não estava enganada.

Que números terá a directora-geral para analisar no final desta pandemia que se prepara para transformar a forma como vivemos e como olhamos para o mundo é uma incógnita. Poderá demorar ainda muito até que Graça Freitas possa retomar os seus hábitos de leitura (o Nobel V.S. Naipaul está entre os seus preferidos) e as viagens em que procura quase sempre visitar jardins botânicos. Dos tempos em que sonhava ser agricultora ficou-lhe o gosto pela terra, sobretudo pelas camélias e pelas orquídeas.

Fonte: Agroportal