“O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética… O que me preocupa é o silêncio dos bons.” (Martin Luther King)

Sabem aquela sensação de estar a ver a nossa equipa de futebol a sofrer golos e não mudar de tática de jogo? É assim que me sinto muitas vezes a ver a agropecuária a perder o jogo da comunicação com os movimentos ativistas para quem os criadores e as suas vacas são culpados de todos os males – depois do “bode expiatório” do antigo testamento temos as “vacas expiatórias” do século XXI. Não é um jogo fácil. De um lado somos amadores em comunicação (agricultores e técnicos) e do outro estão ativistas focados em comunicação permanente.

Os produtos da agricultura e pecuária que hoje chegam ao prato do consumidor são mais seguros e produzidos de forma mais eficiente do que há 100 anos. Produzir um kg de carne ou um litro de leite da moderna agricultura precisou de menos água, terra e energia. Isso é o resultado da investigação, do aconselhamento técnico e da execução profissional e cuidada no cultivo das plantas e criação de animais. Essa evolução deve ser comunicada aos consumidores.

É preciso entender que a comunicação é uma ciência que exige estudo e investimento no trabalho de profissionais. Investimos milhões em investigação, investimos milhões em máquinas e construções para cuidar dos animais com o máximo bem-estar seguindo a informação científica disponível e depois tudo o que fazemos é arrasado num documentário manipulado que não fomos capazes de prever e ao qual não somos capazes de responder de forma eficaz. A comunicação é uma ciência em que devemos investir.

A comunicação deve ser profissional, mas também autêntica e verdadeira. Temos de mostrar a realidade do cultivo dos campos, a criação das vacas, o rosto de agricultores e não apenas bonitos atores em prados de sonho orientados por publicitários para mostrar um ideal que os consumidores desejam mas não existe.

É importante sermos os primeiros a comunicar. Quem já visitou uma vacaria, quem souber como os agricultores normais trabalham e cuidam dos animais não vai acreditar no primeiro documentário manipulado que lhe mostrarem. Pelo contrário, se a primeira impressão for má será muito difícil retomar a confiança dessa pessoa que criou preconceitos.

A nossa comunicação tem de ser permanente como são permanentes os ataques á nossa atividade. Não basta escrever um comunicado em cada crise ou fazer uma campanha de comunicação a cada 5 anos. É preciso ter bons porta-vozes sempre disponíveis e num trabalho permanente.

A comunicação no século XXI está tão segmentada como um bolo de bolacha. Antigamente as guerras ganhavam-se na terra, no mar e no ar. Agora temos de travar a luta da comunicação em todos os níveis – nos jornais, na rádio, na televisão, nos documentários e nas várias redes sociais, do Facebook ao Instagram passando pelo Twitter e WhatsApp.

Discutir com fanáticos é tempo perdido, mas denunciar mentiras é uma obrigação para proteger outros de serem enganados. Em Portugal dizemos que “onde há fumo há fogo”, mas também pode ser fumo artificial dos concertos de música, artificial e falso como a carne sintetizada em laboratório ou as bebidas que tentam imitar o leite. Ou pode ser o Lewis Hamilton a queimar pneus e gasolina na fórmula 1 depois de parar de comer carne para “proteger o ambiente”.

No futebol, se jogamos sempre à defesa no nosso campo arriscamos perder o jogo. Também devemos jogar ao ataque e no campo do adversário. Que interesses tem quem nos ataca? Quem ganha com a nossa desistência? Que subsídios procuram? Quem lhes paga? De que vivem? Que erros já cometeram? Quando foram apanhados a mentir? Quantas pessoas deixaram de comer carne e peixe e voltaram depois a uma dieta normal porque tiveram problemas de saúde? Quantas crianças já ficaram doentes ou morreram porque os pais lhes restringiram a dieta e até foram condenados em tribunal por isso? No futebol, não é tarefa do guarda-redes nem dos defesas fazer o ataque. Também esta tarefa de jogar no campo do adversário não compete aos agricultores, mas alguém a deve fazer, pelo bem de todos – da agricultura, do meio rural, do ambiente e da saúde da população.

Nós, agricultores, podemos usar as redes sociais para comunicar. Faço isso no meu blog  “Carlos Neves Agricultor”, no Facebook com o mesmo nome e no Instagram. Outras páginas do Facebook que recomendo: “Agricultora, Veterinária e Mãe”, também aqui de Portugal. “Farmer Tim”, no Canadá; Farm Babe, nos Estados Unidos.

Sejamos positivos! A maioria da população está connosco, respeita o nosso trabalho e só precisa que saibamos ouvir as suas questões e responder sem mentir, ser agressivos ou desistir. Segundo um inquérito de 2019, 99,8% das pessoas continua a comer carne e peixe. O resto é muito ativismo, muito barulho e pouco conteúdo. Estamos a ganhar o campeonato da alimentação e podemos ganhar o jogo da comunicação.

(artigo publicado no nº 15 da revista vaca pinta)

Fonte: Agroportal