“Olhem para os vossos Pastores como eu olhei para os Índios da América”

Komarek

Incêndios assolam a Austrália. Pessoas perdem as casas, os bens ou até a própria vida. Fumo cobre os céus, pessoas e animais em fuga por entre caos e horror, extensões enormes pintadas a negro. Um verdadeiro inferno.

Infelizmente este é um cenário que por cá, também conhecemos bem. Com efeito, é mais o que nos une que o meio mundo que nos separa. Vejamos:

Lá, como cá, o fogo faz parte da natureza. De facto, tanto na Austrália como em Portugal, evidências paleoambientais por um lado, e a resposta adaptativa das espécies e habitats, por outro, indicam a sua presença desde os confins dos tempos;

Lá, como cá, isso acontece por factores endógenos ao ecossistema: são área de transição entre os desertos e as zonas temperadas, sendo que os primeiros têm óptimas condições para arder, mas não têm nada que arda, ao passo que nas zonas temperadas, apesar de haver muita biomassa para arder, as condições não são propícias ao fogo… é cá ou lá, que ambas se conjugam: há o que arder e condições para arder;

Lá, como cá, por isso mesmo, ainda não existiam homens e já havia fogo;

Lá, como cá, não obstante, a importância do fogo como factor ecológico foi incrementada pelo Homem, com a posse e domesticação do fogo. Com isto, as causas dos incêndios aumentaram e diversificaram-se extraordinariamente;

Lá, como cá, a partir dessa altura, a ocorrência de incêndios tem estado ligada, de forma cada vez mais estreita, ao Homem, determinando um regime de incêndios fundamentalmente relacionado com as actividades humanas, tendo contribuído de uma forma notável para moldar os ecossistemas e paisagens à nossa volta;

Lá, como cá, no entanto, o uso ancestral do fogo foi quebrado, e há décadas que a estratégia oficial se baseia na supressão geral de fogo;

Lá, como cá, e na vigência já de tal estratégia, deram-se transformações profundas, quer a nível demográfico, quer, consequentemente, em alterações no uso do solo, quer ainda na legislação, nos meios de combate, e mais recentemente, também na gestão da área florestal, com a esfera ambiental cada vez mais central;

Lá, como cá, devido ao facto de, ao longo de séculos, ter ocorrido combinado com outras interferências de origem humana, o impacto do fogo nas paisagens é subestimado, e uma vez que a maioria das ignições é humana, é compreensível a percepção social desfasada sobre a natureza do fenómeno, que por sua vez, dá espaço para teorias conspirativas. Acresce um quadro de alterações climáticas – também elas, lá, como cá, como em todo o lado – que, no mínimo, traz incerteza a algo já de si mal-entendido;

Lá, como cá, o fogo é, então, um grande incompreendido, o que aliado ao crescimento populacional, urbano e de infraestruturas, assim como da combustibilidade de paisagens em que a vegetação cresce livremente, deixa pessoas e seus bens expostas ao risco.

Lá, como cá, lamentavelmente, esse risco é-nos lembrado por recorrentes tragédias – dos 173 mortos em 2009 em Victoria às mais de 9.000 casas destruídas num único incêndio, nesse mesmo Estado, em 1983, aos 62 mortos e 7.000 desalojados na Tasmânia em 1967… Cá foi 2017 com Pedrógão e Outubro e mais de uma centena de mortes, ou os mais de 30 mortos das tragédias de Armamar e Águeda em meados da década de 1980, ou à perda de 25 soldados em Sintra em 1966;

Lá, como cá, contudo, o grande mediatismo e a velocidade com que rapidamente o tema é votado ao esquecimento favorece o comportamento reactivo das autoridades, que se tem guiado por procedimentos há muito estabelecidos (o reforço de meios de combate e de produção legislativa desarticulada, confusa e, pior, na maioria das vezes desrespeitada) sem dar atenção às raízes do problema: a escolha não é entre ter ou não ter fogo – este independentemente da nossa vontade, foi, é e será, inevitável – mas sim no tipo/padrão de fogo.

E, tanto lá como cá, os nossos ancestrais mostraram-nos que é possível uma sã convivência!

“O fogo é um mau patrão mas um bom empregado” (Provérbio Finlandês)

João Adrião

Gestor Ambiental e Florestal

Fonte: Agroportal