Transitar de energia fóssil para energia renovável não é a chave para a resolução de todos os problemas do planeta. O alerta vem da Secretária de Estado do Ambiente, Inês Costa que, sem deixar de reconhecer a necessidade desta transição, virou o ponteiro para a intensidade de recursos associada às renováveis, necessária para garantir as estruturas materiais de que a energia depende para ser usada.

A abrir a Portugal Renewable Summit, conferência anual da APREN, a governante trouxe à liça as estimativas do Banco Mundial, que estima serem necessárias 34 milhões de toneladas de cobre, 40 milhões de toneladas de chumbo, 50 milhões de toneladas de zinco, 162 milhões de toneladas de alumínio e 5 mil milhões de toneladas de ferro para assegurar a transição energética até 2050. Podemos ainda juntar metais críticos a estas contas, e aqui a Secretária de Estado aproveita para lembrar o neodímio, o índio ou a prata, cuja relevância se esconde atrás da mediatização do lítio. E por falar em prata, o México tem uma das maiores minas do planeta – 100 km2 que irão produzir 11 mil toneladas em 10 anos. A transição energética pretendida, e necessária, como a governante nunca deixou de vincar ao longo da comunicação, implicaria mais 130 minas desta escala, só para prata. Poderíamos ainda falar de sílica, um material essencial a componentes eletrónicos e a tecnologia renovável, que é o segundo recurso mais explorado em todo o planeta e enfrenta problemas de escassez.

A evidência sugere não haver recursos materiais suficientes para assegurar as metas de Paris, o que nos empurra para a necessidade de pensar estrategicamente estes recursos e dissociarmos o crescimento da exploração de recursos, sobretudo onde essa exploração é mais supérflua. “Não devemos continuar a usar metais raros em playstations porque precisamos deles para fazer painéis solares” – a ideia do consultor Pieter van Exter, coautor do relatório Metal Demands of the Dutch Energy Transition, é aplicável a outras áreas. Não se trata apenas de trocar um modelo de consumo por outro para poupar recursos, mas diminuir o consumo de uma forma geral, passando do transporte particular (ainda que elétrico) ao transporte público, substituir a lógica da obsolescência programada pela da durabilidade e reparação, e desincentivar indústrias “socialmente desnecessárias, que alimentam nichos de consumo particularmente ineficientes em termos materiais e energéticos”, vincou Inês Costa.

Se é certo que a energia limpa e acessível é um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, consegui-lo não pode implicar o descaso dos restantes 16, como o 6 (Água Potável e saneamento), ou o 12 (Produção e Consumo Sustentáveis). Conseguir este equilíbrio depende, para a Secretária de Estado, de uma abordagem sistémica, que não deixe pelo caminho nenhuma etapa da cadeia de valor das energias renováveis. Isto implica reduzir a pegada hídrica associada à extração de minerais, e aplicar princípios de economia circular, retirando materiais do banco existente em vez de extrair permanentemente matérias-primas – ir aos telemóveis, às baterias e a todos os utensílios onde estão os recursos a reaproveitar.

Uma parte do caminho já começou a fazer-se. Somos, afirma Inês Costa, mais eficientes, já que em Portugal o consumo de energia por unidade de riqueza tem vindo a diminuir, tal como aconteceu com a intensidade carbónica, em resultado de processos mais eficientes e menos poluentes e de uma mudança de produtos intensivos em materiais para serviços desmaterializados. Ao mesmo tempo, o consumo interno bruto de energia e de materiais tem vindo a aumentar desde 2014, em linha com a retoma da economia, e isto é um fenómeno global. “A única energia limpa verdadeiramente limpa é a que não consumimos”, frisou a Secretária de Estado, mas para salvaguardar a economia e o ambiente as mudanças terão de ser drásticas. E não podemos esperar.

Fonte: Indústria e Ambiente (de 10 de dezembro)