A agropecuária tem sido alvo de ataques sucessivos nos meios de comunicação e redes sociais. Entretanto, ocupados com o trabalho e apanhados desprevenidos, nós, agricultores, criadores de animais ou indústria transformadora, vamos escolhendo entre ignorar ou reagir ao “caso” do momento. Temos sido mais reativos que proativos. De certa forma, estamos nesta luta na posição de “Defesa do castelo”, uma curiosa expressão que ouvi, noutro contexto, alguns meses atrás.

Convém lembrar que “defender o castelo” tem aspetos positivos. Significa, em primeiro lugar, que somos nós que estamos no castelo e temos o que deseja quem nos ataca. O que será? Nuns casos, temos o mercado que os novos produtos (por exemplo, bebidas vegetais ou a carne artificial) querem conquistar; noutros casos, porque o mercado e a cadeia de valor não pagam um preço justo ao produtor, temos algumas ajudas compensatórias de Bruxelas que outros gostavam de levar para outros destinos. Ou simplesmente temos qualquer coisa que incomoda ativistas urbanos de barriga cheia que sempre tiveram a comida barata, segura e acessível no supermercado e agora viram um documentário ou qualquer coisa no youtube, facebook ou instagram de alguém que seguem como líder de uma seita.

Devemos então ficar impávidos e serenos perante os ataques? É prudente manter alguma serenidade para não perder a razão nas trocas de palavras. Há sempre gente a tentar provocar penálti, a tentar fazer-se de vítima para ganhar o debate. Churchill avisou que “se você parar a atirar pedras a todos os cães que ladram pelo caminho nunca chegará ao seu destino”. Mas o nosso povo diz que “quem não se sente não é filho de boa gente” e Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, já dizia que “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Assim, não responder perante ataques constantes pode levar à desmoralização e ao desmoronamento das “muralhas” do castelo.

Por vezes, o castelo parece cercado porque os ataques vêm de vários lados: do lado ambiental, do lado da saúde ou do lado ético. Uns alegam que “a agricultura e a pecuária poluem o ambiente e causam alterações climáticas”, outras vezes dizem que “os alimentos atuais fazem mal à saúde” e outros repetem que “os animais são explorados e vítimas de maus-tratos inaceitáveis”. Em cada um desses temas, devemos dividir as pessoas em dois grupos: os fanáticos, que já sabem tudo e inventam ou repetem meias verdades para levarem a água ao seu moinho, e os outros, que tem dúvidas, que perguntam e estão dispostos a ouvir e podem ter algo a ensinar também. É um erro meter todos no mesmo grupo, estaremos a juntá-los contra nós. Devemos responder a cada assunto de forma cientificamente fundamentada. Devemos ser transparentes e abertos, mas sem ingenuidade que permita a um infiltrado apanhar uma foto ou uma frase fora do contexto que pode ser usada contra nós. Devemos responder e comunicar regularmente, mas evitar o confronto direto com os fanáticos, porque no confronto direto vamos dar ao adversário uma importância que ele não tem.

O nosso castelo é vasto e tem muitas faces, ameias, muralhas e recantos. Vai uma distância enorme entre a criação de cavalos e vacas, ovelhas e porcos, cabras e abelhas, peixes ou caracóis, entre o intensivo e o extensivo, entre o minifúndio e latifúndio, entre o familiar e o empresarial. Mais cedo ou mais tarde, tudo isto estará debaixo de fogo. Á luz da ideologia “anti-especista” que está por trás do movimento animalista (e que agora aproveita a boleia e se disfarça de ambientalista – arde a Amazónia e a solução é deixar de comer carne), tudo isto é “exploração animal inaceitável”. E quem pretende “conquistar o castelo” procura o alvo mais próximo ou que pareça mais frágil, tal como os lobos procuram a ovelha mais fraca do rebanho. Um transporte em más condições, um animal com pouco espaço, um funcionário mais bruto com os animais… começando pelos mamíferos, pelos animais com mais semelhanças com os humanos, começam por “retirar apoios à pecuária intensiva”, mas, de ativismo em ativismo, o objetivo é chegar a todo o lado, à “libertação total” de todos os animais, ou seja, á proibição de toda a criação. Assim, antes que isto aconteça, será prudente haver união e solidariedade entre todos os setores da atividade pecuária, porque vai tocar a todos… é uma questão de tempo.

O nosso castelo merece respeito, mas precisa de manutenção e novas janelas, porque é muito velho, tão velho como a agricultura e a civilização. Não fomos nós, nem os nossos pais, nem os antepassados na revolução industrial há 200 anos, que inventaram a pecuária. A domesticação de animais para obter carne, leite, ovos, mel, tem 10.000 anos de história com avanços, recuos e aprendizagem. Contudo, ao longo de milhares de anos essa evolução foi presenciada e vivida por quase todos. Era normal as pessoas criarem e matarem naturalmente as suas galinhas ou o seu porco, como ainda fazem os poucos que vivem no meio rural. Depois facilitámos o abate industrial, proibimos o abate doméstico de grandes animais por razões sanitárias e agora acusam-nos de o querer esconder. Daí a necessidade de comunicar para explicar o que se faz, como se faz, porque se faz e também perceber o que pretende o cidadão e consumidor.

Quem está ocupado a cultivar a terra, a criar animais, a reparar os tratores ou a investigar doenças e tratamentos das plantas ou animais, já está ocupado com uma função muito nobre e importante, alimentar a humanidade, e não precisa de se tornar especialista em comunicação, não precisa de passar o dia a discutir no Facebook, mas deve saber o básico para responder às dúvidas sobre a sua atividade. Quem tem obrigação de assumir a comunicação de forma profissional e permanente são as organizações agrícolas e as indústrias agroalimentares com dimensão. Devem ser proativos, antecipar as tendências de consumo, saber as dúvidas dos consumidores, partilhar essa informação com os agricultores e responder em conjunto, abrindo portas para mostrar a realidade e mudar procedimentos no que for possível e desejado pelos consumidores. Fazer uns raides aos atiradores furtivos, se necessário. Denunciar as suas contradições e interesses escondidos. O Estado deve exercer autoridade. Os tribunais devem responsabilizar e punir quem mente, quem repete calúnias, invade propriedades e instiga à violência. E devemos trabalhar sempre para melhorar o castelo, para que seja mais justo e sustentável do ponto de vista económico, social e ambiental, para fazer parte da solução no combate às alterações climáticas garantindo a segurança alimentar. Afinal, se é um castelo, deve contribuir para a sobrevivência da população e para a segurança da nossa casa comum.

Carlos Neves, agricultor, produtor de leite e vice-presidente da APROLEP

Fonte: Agroportal